Primeiro toque (Uma enfermeira na lavoura)

“Sistematização da Assistência de Enfermagem em Saúde do Trabalhador – Instrumentos para coleta de dados direcionados aos exames ocupacionais da NR 7 e à exposição aos agentes ambientais”. Esse nome comprido é do livro lançado pela enfermeira Márcia Vilma G. Moraes, que desde os 15 anos gosta de cuidar de doentes, prevenir doenças e ajudar no tratamento e cura de trabalhadores. Tanto que precisou de autorização dos pais para estagiar, ainda menina, nas enfermarias da Santa Casa e da Beneficência Portuguesa, em Ribeirão Preto.

O estágio serviu só para confirmar a vocação. Formou-se nas Faculdades Barão de Mauá, ingressou, por concurso, na primeira turma de técnicas de enfermagem do Pronto Socorro Central de Ribeirão, ao lado da Estação Rodoviária, e há doze anos trabalha na área de medicina do trabalho da Organização Balbo, de Sertãozinho, que tem cerca de três mil trabalhadores nas usinas Santo Antônio e São Francisco.

Difícil achá-la no ambulatório. Prefere dialogar com os funcionários nos canaviais e no chão das duas fábricas de açúcar e de álcool. Acompanhada da equipe de técnicos e auxiliares de enfermagem, tira pressão arterial, mede massa corporal, e, com as fichas da turma nas mãos, encaminha para os exames periódicos os funcionários convocados pelo serviço médico das usinas.

Tudo começa com a ginástica laboral e alongamento diários, assim que as turmas chegam à lavoura. “Isso derruba os casos de tendinite e coluna”. Nos últimos seis anos – acrescenta –, com a introdução do soro rehidratante na dieta, os casos de câimbra caíram de 37 para apenas quatro.

No próprio canavial, Maria pede para estenderem os braços e fechar os olhos. E vai contando:

“Se penderem para um lado ou para outro, é labirintite ou algum problema neurológico. Eles nem percebem, mas a gente vê quando o corpo balança. Portanto, não devem trabalhar em alturas. Unhas esbranquiçadas? Pele irritada? Sangramento no nariz? Epa! Não usa corretamente o equipamento de proteção individual de defensivos. Mãos pálidas é uso excessivo de lixadeira ou britadeira, sem obedecer aos intervalos, como mandam os manuais de procedimento. Isso leva a problemas circulatórios. Sem falar nos candidatos a motorista, incrivelmente aprovados em exames de vista do Detran, sem condição alguma para dirigir. Só este ano, me apareceram três cegos de um olho, com carteira profissional E-8, imagine! Os que trabalham em ambiente acima de 80 decibéis passam por exames mais freqüentes de audiometria.”.

Mais? “Se o trabalhador reclama de zumbido ou de que precisa manter alto o volume da televisão ou do rádio, em casa, ele está dispensando o protetor de ouvido, tanto faz se sua atividade é junto às máquinas agrícolas ou na área industrial. O dinamômetro mede sua força. Se for pouca, será encaminhado para um trabalho adequado, porque se forçar, terá problemas na coluna. Para as mulheres, seguimos uma determinação da empresa: elas não podem mexer com defensivos, para eliminar qualquer possibilidade de risco se engravidar.”

Essa rotina, que Márcia destaca no livro, não trata apenas da prevenção de doenças ocupacionais, mas das moléstias clínicas, como diabetes, câncer de pele, de colo de útero ou de próstata. A prevenção começa nos exames admissionais de funcionários. Assim, o primeiro é para detectar verminoses. “Quem vai despender de 3.500 a 4.000 calorias por jornada não pode ter  vermes, caso contrário faltará muito ao trabalho, de tanta fraqueza. Nesta safra, ainda encontramos 27% de funcionários com verminose – entre os maranhenses, 36,2%, e 60% dos pernambucanos. Felizmente, os portadores de doença de Chagas somaram 1,67%, mal que está desaparecendo, graças à orientação dada a todas as famílias.”

Todos os trabalhadores com qualquer problema de saúde que exija mais atenção são encaminhados, e acompanhados, pela enfermagem aos especialistas dentro da própria empresa, que tem, até, programa de prevenção do câncer ginecológico.

Márcia define seu livro como um guia que orienta como cuidar do doente no ambiente de trabalho. “Todos os enfermeiros precisam desse procedimento. Só com aquelas práticas preliminares, imagine o quanto se alivia a fila de atendimento do médico, quantas horas de trabalho se ganham apenas por prevenirmos doenças dos trabalhadores e de seus dependentes.”

Essa mineira de Cataguases, filha de um mecânico industrial, em Batatais, e esposa de um comerciante, já trata dos papéis para a aposentadoria: “Não vejo a hora. De tanto conviver com trabalhadores rurais, peguei gosto e quero cultivar horta, pomar e flores no sítio da família, em São Sebastião do Paraíso (MG).”

Ela fala dos objetivos do livro: “É para enfermeiros e médicos diagnosticarem moléstias que o próprio paciente não percebe – a hipertensão é a mais freqüente. Cortar cana não provoca hipertensão, mas o hipertenso que não se cuida não pode cortar cana”, observa.

É sua segunda obra. A primeira, “Enfermagem do Trabalho. Programas, Procedimentos e Técnicas”, de janeiro do ano passado, já está na terceira edição, com procura em nível nacional. Nem ela esperava tanto sucesso. Virou referência bibliográfica para concursos públicos.  “Há poucos trabalhos nessa área e é útil para enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem. Afinal, o primeiro toque da medicina no paciente é nosso…”

Os dois livros de Márcia Vilma G. Moraes estão nas livrarias e podem ser adquiridos também pelo site da Editora Érica: www.editoraerica.com.br.

 

Mais informações:

(16) 39464000 – Usina Santo Antônio

márcia@canaverde.com.br

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