Prezada Sra. Fátima Constâncio

Meus respeitos e minha sincera admiração pela senhora – ainda — não ter perdido a capacidade de se indignar. Deve ser uma daquelas pessoas, hoje raras numa comunidade, que crêem no ser humano, apesar da espécie.

Para os que não estão entendendo nada desta nossa conversa, peço licença para reproduzir sua carta, publicada há uma semana aqui na indispensável seção “Correio do Leitor”, lá na página 2 deste mesmo caderno. Sob o título “Abandono”, dona Fátima Constâncio alerta:

“Presenciei uma cena muito triste: uma rapaz de apenas 40 anos, com câncer, tendo de tomar banho com água fria, porque sua casa estava sem energia elétrica havia um ano, já que ele não podia pagar a conta. Ele não tinha nem mesmo o que comer, visto que ele só pode ingerir alimentos líquidos. Além do câncer, a falta de alimento o está matando. Onde estão aqueles que prometem cuidar da população?”

Dona Fátima, eles deviam estar nas câmaras municipais, nas assembléias legislativas, na câmara federal, no senado, nas secretarias, nos ministérios, no Planalto, nas prefeituras, nos palácios dos governos estaduais, ou esparramados em cargos públicos barganhados por políticos e pagos pelo povo. Estão em altares profanados, transformados em palanques, ou atrás de guichês de outrora bons cinemas, alguns degenerados em templos caça-níqueis. Deviam estar, mas não estão, deviam sempre ser, mas nunca são.

Muitos deles, como fazem a cada dois anos, outros a cada quatro, estão de volta e são vistos – tristes cenas – pedindo nosso voto nas estações de televisão e de rádio. Ainda na terça-feira que passou, vi a Maria Paula no papel de uma prostituta-candidata. Parodiando a tragédia, ela ‘pedia votos’ em uma comédia. Seu argumento: “Quero ir para Brasília, porque gosto de sacanagem.”. Vão dizer que é a “degradação da democracia”. De fato. Mas não por culpa dela. Só para aparecer, mas sem o talento da atriz nem a coragem da senhora, vão querer processar a artista. A arte da Maria apenas imitou a vida. No fundo, dona Fátima, ela respondia à sua carta.

Pregado no poste: “Se o que um candidato fala do outro for verdade, todos deviam estar na cadeia”

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