Preciosidade

A jazida da Maria Elisa Meirelles, lá da Mercado de Letras, exibe outra jóia, ”Bilhetes Postais”, garimpada, lavrada e esculpida pela mocoquense Ana Carolina Feracin da Silva, da Unicamp. Leitura obrigatória esses bilhetes, porque foram escritos por Henrique Maximiano Coelho Netto, professor, político, romancista, cientista, crítico, teatrólogo, fundador da Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras e, acima de tudo, porque de 1900 a 1904 viveu em Campinas, ajudou a fundar nosso Centro de Ciências Letras e Artes, em 1901, e lecionou no Colégio “Culto à Ciência”. Por pouco não assiste ao jogo de estréia da Ponte Preta — adorava futebol.
Grande amigo de Santos Dumont e admirador de Carlos Gomes, Coelho Netto recebeu o “Pai da Aviação”, quando ele visitou a cidade em 1903 e fez conferência no CCLA. Juntos participaram do lançamento da pedra fundamental do monumento ao maestro e visitaram o colégio, onde Dumont também estudou. Os campineiros gostavam dos três. Também…
No Natal de 1903, no Teatro São Carlos, foi à cena “A Pastoral”, do professor. Peça escrita especialmente para os atores amadores do “Clube Livro Azul”. Esse espetáculo foi o “must” da cidade naquele ano. Da parte musical incumbiram-se os maestros Henrique Oswaldo, Alberto Nepomunceno, Francisco Braga e Sant’Anna Gomes. Bernardelli desenhou os cenários pintados por Alfredo Norfini.
Quando Coelho Netto chegou a Campinas, com 36 anos, para lecionar Letras Clássicas no “Culto à Ciência”, já era nome consagrado na literatura nacional. O trabalho da Ana Carolina foi selecionar 150 crônicas publicadas por ele entre maio de 1892 a dezembro de 1893 na imprensa do Rio de Janeiro – são os “bilhetes postais”. Um período fascinante de passagem da monarquia para a república. Deliciosamente, o Coelho vai falando de tudo o que mexia com aquela sociedade metida à francesa: polícia, políticos, febre amarela, bombeiros, cólera, greve, abolição, África, amor, bondes, Carnaval, casamento…
Como o espaço está no fim, amanhã vamos falar de duas crônicas que ele escreveu sobre políticos. São ótimas e se encaixam na mediocridade e na farsa que (ainda) marcam nossa política. Esse livro da Ana Carolina – como todos que a Mercado de Letras edita – deveria estar em joalheiras, não em livrarias. E tem um grande mérito: quando alguém pedir a você o nome de um escritor maranhense, pelo amor de Deus!, mostre que tem amor próprio e nunca mais cite o Zé Sarney (argh!).
Pregado no poste: “O que você está lendo? Caras?”

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