Poste, pra que te quero

Zé Aparecido, mineiro matreiro, tinha o “Jornal do Poste”. Um dia, pregou lá: “Metade da Assembléia é corrupta”. Condenado a desmentir, pregou de novo: “Metade da Assembléia não é corrupta”. (Só metade, Zé?)

Já imaginou uma cidade sem postes? E se não fosse o poste? Onde os cachorros sem dono iam fazer xixi? (Os que têm dono fazem na calçada.). Há políticos que vêm no poste o lugar preferido para sujar com seus nomes na época de eleição. (Juro que se os postes falassem, diriam que preferem xixi de cachorro.). Falando em cachorro, poste também serve para se colocar aviso de que um desapareceu, deixando uma criança doente. Quando os postes eram de ferro, não existia lugar melhor para bater com pedra e avisar a chegada do Ano Novo. Quando os postes eram de madeira – e os últimos estavam na Avenida Barão de Itapura –, serviam de pau de sebo em festa junina improvisada na rua. Quando se podia brincar de pega, o poste era o melhor pique. Lembra? Servia, ainda, para bater cara na brincadeira de esconde-esconde.

Poste, que esconde o magro e exibe qualquer gordo, que parava o bonde e ampara o bêbedo — o último que ouve suas mágoas, não reclama, não se aborrece e ainda ilumina seu caminho. Mesmo nestes tempos de celular, o poste guarda os segredos das conversas telefônicas levadas pelos fios da dona ‘Teleafônica’ que ele sustenta, ao lado dos fios de luz. Fios de luz… Não fossem os postes, quem garantiria a escala dos vôos dos pássaros? Varal de velhos tênis e pipas perdidas.

Onde amarrar faixas ou pendurar cartazes com todo tipo de anúncio – da quermesse da paróquia ao show de todo artista, da “igreja” caça-níquel ao jogo da várzea na manhã de domingo? Onde desenhar com giz branco no ferro negro aquele coração cortado pela seta, o nome dela em cima e o seu embaixo? Quando a luz queimava, o poste era o melhor lugar para namorar (você na rua, ela em cima da calçada, encostada nele…).

Pregado no poste: “A inteligência está perdendo para a esperteza.”

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