Por isso…

“Assim, termina o dia neste planeta azul. Terceiro do Sistema Solar. Na imensidão, não há outro igual. Por isso…”

            Depois eu conto o que vinha depois desse “por isso…”

Quando vi a bela foto do Augusto de Paiva na primeira página da edição de domingo, 31 de agosto, mostrando os “Generais de 2030”, ouvi a trilha sonora de “2001, uma odisséia no espaço”. A foto me trouxe a música, a música me trouxe os estúdios da Rádio Cultura e a sacada do 5º andar do prédio do Correio Popular, ainda na Rua da Conceição. Daquela sacada, olhando para o céu da noite de Campinas, meu irmão Beto Godoy criou aquela frase que, sonhávamos, encerraria um jornal falado que há tempos vínhamos desenhando para terminar, a cada dia, a programação da rádio do “seu” Abel Pedroso. Tudo bem comendador?

A imagem vertiginosa, concentrada num cadete da Escola Preparatória, me lançou em um mergulho no tempo, varando quase 30 anos de história da cidade e espirrando angústias e alegrias pra todo lado. Foi pouco depois do “AI 5”, o marechal Costa Silva ainda governava, para desespero dos que esperavam uma luz de liberdade e ganharam um mordaça e uma viseira — presente típico dos que odeiam quem quer ver, falar, viver, enfim.

Seo Zito Palhares, nosso chefão inesquecível na Cultura, veio com a encomenda: “Junta você e o Gordo e bolem um jornal falado para encerrar a transmissão à meia-noite, antes de o Ary B. Pontes começar o Luzes da Cidade, na madrugada. Falei com o seo Abel, vamos arrumar um bom patrocinador. Gravem tudo, um jornal inteirinho, que eu vou mostrar para o anunciante. A produção será feita com o pessoal lá do Correio Popular.”

Vixe Maria! Saí correndo da rádio, na Benjamim Constant, cruzei a Barão de Jaguara, entrei na Conceição e nem esperei o querido Florêncio, até hoje ascensorista do prédio central do Correio. Subi cinco andares numa pernada e estanquei na frente da mesa do Betão: “Aquele jornal vai sair! Seo Palhares mandou a gente gravar um, do jeito que nós acharmos melhor, que ele vai levar para um anunciante.” O sorriso do Beto foi igual a esse que ele distribui até hoje.

Caprichamos! Lembra Betão? O dia seguinte estava amanhecendo e o projeto, finalmente, estava pronto. Nome: “Jornal da Noite”, dividido em várias seções, desde um bloco dedicado aos jovens (com direito à vinheta dos Beatles), até reclamação de ouvintes, ao vivo, como a seção de cartas dos leitores, aqui do Correio. Ficou espetacular.

Gravamos tudo no estúdio do Henrique de Oliveira Júnior, com assistência do João Gilson de Campos, o melhor sonoplasta (mais plasta do que sono ou vice-versa), que existia na cidade. Abertura e encerramento, no vozeirão do nosso Carlos Tontoli, “filho” legítimo do “Caçador de Esmeraldas” nas telas e então secretário de redação do Correio.

            “Carlitão” disparava: “Por isso…” e, no estúdio, o apresentador emendaria uma mensagem por dia. Gravamos duas, como exemplo: “…governo de consciência tranqüila não teme a liberdade de imprensa” e “…o presidente do ano 2000 está com 19 anos, matricule-se hoje mesmo na Escola de Cadetes do Exército…” Nenhum anunciante teve coragem de bancar a irreverência aos militares que encerrava o jornal. Seo Palhares e seo Abel não tiveram coragem de nos censurar. “Não vou mexer no trabalho dos meninos, está muito bem feito; se não aparecer anunciante, ficamos sem o jornal”, disse o comendador ao seo Zito.

A liberdade de imprensa agradece.

 

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