‘Pesca da gente’

O Ciro Porto me pesca um baita tucunaré-pitanga de quase três quilos e esnoba o telespectador: “Este ainda é pequenininho!”. Finalmente, um pescador que não pode mentir. E como não pode mentir, tinha de ser jornalista… Esse Ciro é aquele repórter do timão da Mara Rúbia, que todo sábado à tarde aparece na casa da gente para pescar pelo Brasil. O tucanaré-pintanga ele fisgou pouco antes do Natal, lá no Rio Cururu, na Alta Floresta do Ariosto da Riva, divisa do Mato Grosso com o Amazonas (ou Pará, Ciro?). Um exagero de pescaria: “Em menos de duas horas, 40  peixes.”. Como o programa só tem uma hora de duração, não deu para conferir se não era mais uma “verdade de pescador”. Teve até para o cinegrafista José Ferreira. Ele jurou: “É o primeiro tucunaré da minha vida; filmar, já filmei muitos, mas pescar…”.

Pescador verdadeiro tem fama de mentiroso. Existem até livros especializados nas mentiras deles. Mas na televisão não dá para iludir ninguém. Quando ele conta que pescou um peixe “deste tamanho”, tem de mostrar e aí… Fora as piadas, há pescadores que contam as maiores barbaridades em forma de façanhas e a gente tem de ouvir quietinho, fingindo acreditar. Um amigo, o Prisco, mensageiro do Estadão, passava horas contando a luta que travou com um tubarão (!) até tirá-lo de vez das águas do Rio Tocantins (!!!). “Mas porque você não amarrou a linha num trator, Prisco?”. Ele nem ‘te ligo’ e fazia crescer a mentira: “Bem que nós tentamos, mas o trator atolou na barranca do rio; o bicho teve de sair a muque!”.

Aí em Campinas, tive um tio pescador. Toda manhã de sábado, ele partia para a beira do Atibaia, no arraial de Sousas. Ele e os amigos, de caniço e samburá, viajavam no bondão verde até perto do Hotel Floresta, da dona Amélia. Depois, mais quatro quilômetros, a pé. E voltava a tempo de pegar ainda aberta a peixaria da dona Rosa Tavares, no Mercadão. Chegava em casa carregado de sardinha, pescada e, sempre, um robalo “para o almoço de domingo”. Minha tia, fingindo inocência, cochichava: “Gente, o Atibaia virou mar e ninguém está sabendo…”. Uma história sempre mal contada. Será que ele ia mesmo “pescar” ou “pecar”?

Meu caro Ciro, esse Rio Cururu, onde você esteve pescando tucunaré-pitanga, eu conheço de fama. Era o lugar favorito da comitiva do meu sogro, seo Arlindo, grande amigo do Beto Godoy. O Beto também conhece essa história. Ele dizia pra nós que na margem direita, lá em cima, numa mancha de terra roxa em meio àquele cerradão, havia uma figueira branca. Certa vez, uma onça (ainda bem que não foi um tigre) pôs a turma da pescaria pra correr. Todos se salvaram, escalando a árvore. Foi ali, no desespero para se safar da bicha, que seo Arlindo deixou o relógio enroscado num galho da figueira. Ele conta que muitos anos depois, voltou lá com a mesma comitiva e inventou de subir na mesma árvore. “E não é que o meu relógio ainda estava lá? É. Este mesmo relógio que vocês estão vendo. E estava funcionando direitinho, os ponteiros, o calendário, tudo!”.

Inacreditável! Como foi possível esse milagre? “Sabe o que aconteceu? Junto daquele galho, estava nascendo outro, bem juntinho mesmo, que foi crescendo e, ao mesmo tempo, empurrando o botãozinho da corda. Por isso, o relógio não parou…”

Pregado no poste: “Na barraca de peixe: Pirarucu? Tiraram sim senhora!”

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