Perigo

“Perigo é pra baixo do umbigo”, dizia minha avó, quando conversava com as jovens que se aventuravam a uma conversa, digamos, mais profunda. Aquela senhora se divertia com o prazer de levantar às cinco da manhã só para fazer balas de coco puxa-puxa para a molecada que tomava os ônibus rumo ao campus da Puccamp, na porta da casa dela, na Rua José Paulino. Manhã ainda escura e aquela roda de jovens no portão se esbaldando com as brincadeiras da Dona Guigui. Se aparecesse uma aluna com sinais de gravidez, ela não perdoava: “Dormiu sem calcinha?” E olhava para as outras com o indicador em riste: “Não falei? Tomem conta da caixinha!”

— Dona Guigui, acho que meu namorado está me traindo…

— E porque você não trai ele também, bobona?

Essa eu ouvi:

— Dona Guigi, as coisas lá em casa não estão bem. Meu irmão contou para a família que arrumou um namorado e minha irmã, para fechar o circo, disse que tem uma namorada! Agora, ninguém conversa com ninguém!

— Se ele tá feliz ‘co’ dele e ela, feliz ‘ca’ dela, ninguém tem nada com isso, uai! Ouviram-se aplausos. Aqui e ali, mas bateram palmas, sim.

Até aqueles começos dos anos 70s, o perigo ficava “pra baixo do umbigo”. Violência acontecia, mais à noite, no Mercadão, Chora Coati, Furazóio (Bem pra lá do ponto final do Bonde 4, do Taquaral, perto da barraquinha de maria-mole.). O Jardim Itatinga era uma tranqüilidade, garante o Renato Otranto.

Agora, o mapa é outro. Os repórteres Luciana Félix e Fábio Galacci se arriscaram em pleno dia e percorreram os 15 pontos mais perigosos da cidade. Dia desses, uma equipe de jornalistas do “Correio” foi agredida no olho do furacão por um grupo de moleques que, na falta do que fazer nesta terra de ninguém, achou alguém para ameaçar. Uma alucinada ilustre cidadã quer colaborar com as “otoridades”, disposta a mostrar os pontos mais estarrecedores. Pior: sua generosa oferta foi aceita por aqueles que, com essa atitude, provam que não servem para ser “otoridades”. Saia dessa vida, minha senhora! Quer morrer?

Aproveitando o mapa da Luciana e do Fábio, que pelo menos os ônibus que passam por esses “corredores da morte” circulem com uma faixa preta e o desenho da caveira sobre as tíbias cruzadas: Treze de Maio com Glicério; Norte-Sul com Orosimbo, Moraes Salles e Mogi Guaçu; Mercadão; Rodoviária Velha; Terminal Central; Barão de Jaguara; Chapadão; Ruas do Guanabara; Taquaral; Estrada do Pólo 2 de alta Tecnologia; Condomínio San Conrado; Vila Brandina; Praça Quebra Ossos; Conceição, Dr. Quirino Viaduto Aquidabã e Parque das Universidades.

Pregado no poste: “Facções criminosas que atacam em São Paulo têm nome, endereço e estrela na testa?”

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *