Perdemos

Quando Deus leva um craque, dizem que, como Garrincha, “ele não driblou a morte”. Se leva um humorista, como Golias ou Chaplin, “o mundo está mais triste”. Assim por diante. Mas quando Deus leva um cientista, é pior, porque sem um membro dessa estirpe especial, o “mundo fica mais burro” ou “menos humano”. É o mínimo que a Humanidade sente com a partida do jovem Marcelo Guimarães, 36 anos, casado com a cientista Ana Artimonte Vaz, ambos da Embrapa em Campinas e pais do Antônio, de um ano e dois meses.

Esta cidade deve muito a eles sua condição ímpar de ser o marco iluminado no Universo. Cinco anos antes do advento revolucionário do “Google Earth”, nosso Marcelo criou “O Brasil (e Campinas) visto do espaço”. (Ana, você sabe que cientista é assim. Será que ele não quis ver a obra lá de cima?).

Marcelo viveu uma vida de façanhas em defesa do homem. Conta seu colega Evaristo Miranda (pai do roteirista e futuro cineasta Daniel) que nos últimos dois anos, o número de desabrigados por enchentes em Campinas caiu de 500 para 30, graças ao mapeamento das áreas de risco criado pelo Marcelo. Estudando os remanescentes florestais da cidade, ele percebeu que há trinta anos não há desmatamento por aqui, o que facilita orientar investimentos em programas de conservação. Mais: agora fica mais fácil saber para onde (e como) levar o crescimento urbano e ampliar os espaços verdes em todos os quadrantes.

Marcelo sabia como ninguém aplicar aquele velho ditado “Quem toca na banda não vê a banda passar”. Ele tinha o dom para ver de cima, como se estivesse a bordo de um satélite, e descobrir o que fazer melhor para a vida de seus semelhantes na Terra.

Não, Marcelo não vivia no mundo da lua nem longe da sensibilidade humana. Deliciava-se, por exemplo, com um método de micropropagação de orquídeas, cultivadas em ampolas, como jóias florais esculpidas pela natureza e protegidas pela criatividade humana. Dura meses!, exclama Evaristo. E essa é outra marca da beleza de Campinas no mundo, deixada por Marcelo.

Cientistas são assim, longe do falso brilho dos holofotes, seu palco é o mundo; sua platéia, o povo. Só o povo. É para nós que eles vivem. Mas se os aplaudirmos, exibirão aquele olhar assustado de “o que foi que eu fiz?”

Pregado no poste: “Não é incrível político prometer acabar com o crime organizado?”

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