‘Pelo amor de Deus!’

O menino devia ter três, quatro anos. Chegou à minha casa, ainda em São Paulo, à noite. Na manhã seguinte, logo cedinho, saímos para uma volta. Ele parou na porta do prédio e crispou: “Vixe! Não tem árvore!?”. Foi a primeira fisgada ecológica. Ele vinha de Tupi Paulista, barrancas do Paranazão, e quando estive em casa dele, apontava com orgulho a imensa praça, onde brincava com as irmãs e amigos: “Meu jardim!”

Bons tempos depois, nosso “Correio Popular” até noticiou: um índio canadense veio ao Brasil para algum evento desses de que ninguém mais se lembra. Na pista do aeroporto de Cumbica, berrou: “Uma árvore, pelo amor de Deus!” Ele gritava a sério. O homem estava desesperado. Tiveram de tirá-lo às pressas dali e levá-lo para debaixo de uma florida tipuana, ali fora.

— É sempre assim?

— Só quando ele não vê árvore. De três em três horas, precisa de uma. Assim, como agora: ele se abraça ao tronco; sobe; anda pelos galhos; parece que se apresenta a uma nova amiga, faz mesuras e desce. Disseram que lá na terra dele, mora em cima de uma na Primavera e no Verão.

— Já pensou se em vez da casa própria, todos quisessem realizar “o sonho da árvore própria”? Se criassem o movimento dos sem-árvore, alguém iria se incomodar se eles invadissem árvore em vez do que é dos outros? É mais fácil tomar uma árvore ou plantar uma para morar. Uma lona, para não estranhar a paisagem, e um pára-raios, para se proteger nos temporais, pronto! Seria o fim do desmatamento no campo e da falta de áreas verdes nas cidades.

Pelo jeito, parece que a paisagem vai esverdear mais rápido. Três notícias do interior mostram que a criatividade é a solução. Em Birigüi, com trema e sem assento, cada criança que nasce ganha uma árvore de presente. Se os pais plantarem… A idéia já foi levada pela Policia Florestal para as maternidades de Andradina e Araçatuba.

Não me lembro em que cidade, mas vale para todas, agora é lei: a prefeitura só dá o habite-se depois que o responsável pela construção plantar uma árvore na frente da obra.

Mas a melhor de todas vem de outra cidade (não consigo me lembrar do nome, mas não importa): em todas as paróquias, a penitência para quem confessa os pecados é plantar uma árvore. O tamanho do pecado não vem ao caso: adultério, torcer para o Corinthians, responder para os mais velhos, cobiçar o próximo da mulher, fofocar, maltratar animais… Pecou, plante uma árvore.

Pregado no poste: “Já plantou um alecrim no Largo da Catedral, padre?”

 

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