Paulinho, o terrível

Terça-feira, o ‘Le Monde’, o mais sisudo jornal europeu, saiu com a manchete digna das irreverências do Diário do Povo: “Pour avoir trop ‘malufé’, les Maluf sont en prison” – ‘Por ter ‘malufado’ muito, os Maluf estão na prisão”. Com aquela cara-de-pau que Deus (Deus?) lhe deu, ele sempre roubou a atenção da imprensa independente.

Tivemos brigas homéricas em público, mas ele nunca me tratou mal. Certa vez, impedido de ir a Piracicaba acompanhar sua visita como secretário dos Transportes (minha mãe fôra internada às pressas no Vera Cruz), pedi ao então prefeito de lá, Adilson Maluf (seu primo), que me pusesse o homem no telefone. Ele me atendeu, muito atencioso. Meses depois, a fera vem a Jaguariúna. Desce do carro preto da Secretaria e grita: “Moazyr Gaastro! Como está a zenhorra zua mãe!? Sarou?”

A expressão “malufar”, usada pelo Le Monde (‘malufé’ é incrível!!!), surgiu quando ele já era governador. Foi a torcida do Corinthians, empolgada por um livro em branco de autoria do ex-deputado José Yunes, então diretor do clube: “A má lufada que abalou São Paulo”. Dizem que Yunes teria usurpado a idéia do também deputado Luís Carlos Santos, que, por isso, quase o pega a tapa em seu gabinete, na Assembléia.

No governo Maluf, o Hospital das Clínicas estava um descalabro digno de Maluf. Cinco repórteres do Estadão chegaram às cinco da manhã ao pronto-socorro e viram o diabo na emergência. Um repórter foi encaminhado à ginecologista – até hoje duvidam dele. Um senhor levava um olho na palma da mão e o atendente disse que não era caso de urgência! Denunciávamos o descalabro havia vários dias e Maluf desmentindo. Então…

Desmascarada a depravação, ele nos chamou para conversar em seu gabinete, no Palácio dos Bandeirantes. Éramos quatro: Roberto Godoy, chefe da Sucursal de Campinas; o editor-chefe, Miguel Jorge; o repórter Pedro Zan e este locutor que vos escreve, chefe-de-reportagem. No meio da conversa tensa, Pedro Zan dispara: “Como o senhor vê as torcidas nos estádios chamando os juízes de Maluf? E esse novo verbo nos muros de São Paulo: ‘malufar’?”

Maluf deu um pulo, abotoou o paletó e se mandou. Consternado, seu chefe-de-gabinete grunhiu: “Falta de respeito! O governador poderia mandar prendê-los pela insolência!” Preso foi ele, não nós…

Pregado no poste: “A Justiça farda, mas não talha”

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