Para o Mestre e para um amigo

Aprontamos mil e uma pela vida — e olha que não o vejo há mais de trinta anos. Inauguramos a luz negra na Bienal de São Paulo, em 69, para desespero do Matarazzo de plantão, que nos flagrou jogando golfe numa sala escura, quando entrou com a comitiva de convidados ilustres para mostrar a ‘novidade’. Fugimos do tenente Rochadel, pelos fundos da Santa Casa, porque humilhavam um jovem que tentava se alistar no Exército: o burocrata da Junta de Alistamento Militar perguntou: “Quando você nasceu?”. O rapaz entendeu “onde”. E o bocó quis crescer na massa: “Eu disse ‘quando’, — adjetivo de tempo!”. E o futuro recruta devolveu: “Não é ‘adjetivo de tempo’ que se fala é ‘adjunto adverbial de tempo’!”. Aplaudimos ruidosamente a ousadia do menino e o tenente gritou: “Insolentes! Respeito com o Exército!”. Acho que ele corre atrás de nós até hoje. Arrogância com vaia se paga.

Esta, acho, foi na Cati, sei lá se no DAT antigo DOT ou na Dira. Ele trabalhava, quando entrou um homem, pôs o chapéu na chapeleira e foi falar com o chefe. O gênio pegou o chapéu, desatou a fita da aba, tirou o fundo encheu de papel picado e recolocou o forro. Quando o dono do chapéu saiu, ouviu uma conversa do meio para o fim: “…e a doença começa de repente; a cabeça vai inchando, inchando, e o cara não dura dois dias.”. O homem pôs o chapéu e saiu. De repente, só se ouviam gritos de socorro pelo corredor e gargalhadas na sala.

Dia desses, ele me mandou esta lembrança. Até me havia esquecido de que além de grande amigo, o Sidnei Levy é poeta, desde sempre. Quer ler?

“Mestre,/ Por que não te ouvi/ Quando me ofertavas ensinamentos/ Não te vi quando te fazias presente/ Em corpo e mente/ Oferecendo tua dedicada vida/ Ao conhecimento/ Por que, mestre/ Não glorifiquei teu ser/ Quando lutavas/ Nas trincheiras da batalha/ Pelo conhecer,/ Pela cultura,/ Hoje tão pouca/ Para tanto que se pede./ E tão pouco tenho a oferecer/ Por que, mestre/ Repudiei teu saber/ Ausentando-me em espírito/ Vontade e compreensão/ Quando tu, em tua luta de gigante/ Jorravas de tua fonte / Inesgotável de sabedoria,/ O Saber, a cidadania,/ Para um ser que vivia/ De ilusão e fantasia./ Por que mestre/ Não te respeitei/ Quando deveria venerá-lo,/ Idolatrá-lo./ Não te ouvia/ Quando tua voz ecoava/ Carregada de acrossofia/ Pela acrópole do conhecimento humano./ E eu me alienava insano/ Como um ser louco/ Em minha incompreensão desvairada/ Tornando-me tão pouco/ De um grande nada.” D’Eu.

Pregado no poste: “Estados Unidos – aquilo virou pedágio?!”

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