Para hipocondríacos

Depois do Rum Creosotado, não tem pra ninguém: o Elixir Dória é o anúncio antigo mais conhecido. Como se esquecer do desenho daquele homem engolindo um boi? Prometia curar tudo: tontura, fastio, vômito, azia, gastralgia, diapepsia, indigestão, cólica, diarréia, clorose (anemia das jovens), dor de cabeça, etc. etc.. Principalmente etc. etc.. Era fabricado em Piracicaba, desde 1903, na Farmácia do Pedro Dória, mas não curava dor de cotovelo nem dor de corno.

Esse insuperável elixir divide a memória da nação hipocondríaca com outro bicho: o bacalhau, que um homem carrega às costas para vender a intragável Emulsão Scott. Há outros ‘infalíveis’ que duram vidas e vidas: Agarol, Azul de Metileno, Fitobilase, Decadron, Aspirina, Melhoral, Fontol, Cibalena, Salofeno, Pepsamar, Extrato Hepático, Magnésia Fluida de Murray, Eucaliptina, Sulfa Guamidina, Necroton, pílulas de vida do Dr. Ross, Aurissedina, Nitrato de Prata para a chapeleta não cair, Iodex, Phimatosan (Caim matou Abel, Phimatosan e Espermatozóide)…

O que faz bem pra tudo é um blog, desenvolvido recentemente pelo jornalista (e que jornalista!) Cley Scholz. Entre (quero ver você sair):  http://blogs.estadao.com.br/reclames-do-estadao. Ele pesquisa anúncios antigos, publicados desde o século 19 no ‘Estadão’. Os de remédios são ótimos e inacreditáveis. Por exemplo: assim como o Elixir Dória, há o “reclame” do médico Sílio de Lacerda, especialista em impotência, frieza sexual (no homem e na mulher), casais sem filhos, gordura, magreza, fraqueza geral, crianças atrasadas e anormais, tireóide (bócio e papo), perturbâncias (meu Deus, o que é isso!?), regras, espinhas e pelos em excesso em mulheres.

Está lá aquele famoso do Xarope São João, de 1944. Um jovem desesperado tenta se livrar da mordaça gritando: “Largue-me! Deixe-me gritar!”. A censura da canalha getulista do Estado Novo nem percebeu que era uma propaganda contra a ditadura! Mais: Gelol até para dor de dente, desde 1906, com um coitado seminu segurando a bochecha inchada.

Puts! O Urodonal, de 1918, garantia lavar os rins e a cura de reumatismo, gota, cálculos, ‘artério-sclerose’, obesidade e azia. No cartaz, um homem tem uma torneira aberta nas costas! Este era rival das benzedeiras e pais de santo: “URUCUBACA! Salkinol nº 1 cura essa moléstia em poucas horas e influenza em 24 horas. Salkinol nº 2 cura asthma (assim mesmo), tosses rebeldes, bronchites e desinfecta os pulmões”.

Em 1900, não existia Viagra, mas a solução era o Vinho Caramuru do Dr. Assis. A propaganda desenha o horizonte no mar e os raios do sol ornamentando o alerta: “Levanta-te e anda!” (Anda!? Como assim?) Mas era fulminante contra fraqueza genital e espermatorréia.

Pregado no poste: “O que arde cura; o que aperta segura”

 

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