Para ‘focas’

O que você vai ler daqui a pouco é uma aula de jornalismo em 1.132 letras. As histórias estavam no saguão do aeroporto de Ribeirão Preto, na manhã de sua reabertura, depois de 90 dias fechado para ampliação da pista. Histórias à espera de um puro-sangue. Aí ele chegou. Seu nome: Sidnei Quartier. Caladão, já grisalho, humilde como manda o primeiro mandamento da profissão, sensível, inteligente, atento como poucos ao que foge à rotina.

Se alguém esperava ler uma notícia “quadrada”, não encontrou nada que falasse na hora exata da primeira decolagem, o prefixo e o tipo do avião, o cardápio da reestréia, número de passageiros, nomes da tripulação ou perguntinhas daquelas: “Qual a sensação de viajar na reabertura do aeroporto? É a primeira vez? Tem medo de voar?”

Sidnei é do tempo em que repórter se preocupava mais com a alma do que com opiniões supérfluas. Prova que não é preciso escrever muito para contar tudo. Marcito Moreira Alves ganhou um “Esso” com uma reportagem de 15 linhas. Esta não tem 20. Sinta que beleza:
“Drama, alegria e esperança no 1º dia:

A pequena Bianca, nove meses e uma doença delicada. Kino, um comerciante de horti-fruti voando para participar, amanhã, da Meia Maratona do Rio. A bonita Ellen e seu buldogue inglês Brutus, com destino a Florianópolis. O técnico da seleção brasileira, Lula Ferreira, chegando triste, abatido pela derrota no Mundial do Japão. Hélio Rubens, do Franca-Basquete, indo para o Rio, todo animado, comentar as finais do Mundial sem o Brasil, no SporTV. O empresário Gilberto Nomeline inaugura hoje um gabinete dentário completo na Faculdade de Odontologia da USP, em São Paulo. Estes são alguns dos mais de 800 passageiros que utilizaram o aeroporto, reaberto ontem, depois de uma interdição de 90 dias para o alargamento da pista. Ao todo, foram 12 vôos e 24 operações (cada pouso e decolagem é uma operação). E muitas histórias. Uma triste, outras engraçadas e algumas de esperança.

A menina Bianca é um anjo. Tem nove meses, uma doença delicada e, por conta disso, passou dez dias em Ribeirão Preto. Foi submetida a uma tomografia, usa remédio raro e caro, importado do Japão. A esperança de Bianca e de sua dedicada mãe, a gaúcha Taís de Souza, é o Hospital de Base da USP. Bianca embarcou para SP e, de lá, para Porto Alegre, onde nasceu. Em dois meses estará de volta ao HC-RP para seguir o tratamento. Que Deus proteja Bianca.”

Pregado no poste: “Proteja os bons repórteres, também”

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