Papel de pão

Não era assim.

Minha mãe guardava papel de pão (Sabe o que é papel de pão? Daqui a pouco eu explico.) e, no fim do mês, juntava folha em cima de folha, dobrava no meio e passava na máquina de costura. Estava pronto o caderno de rascunho, o “borrador”. Com dois lápis “Dois martelos”, número 2, da Johann Faber, apontados com gilete, e uma borracha “Pelicano”, qualquer aluno estava preparado para escrever tudo, de “A pata nada” até análise sintática d’Os Sertões ou d’Os Lusíadas. “Tertuliano, frívolo e peralta…”. Conjugação perifrástica, catacrese ou agente da passiva?

E tome regra de três, mínimo múltiplo comum, máximo divisor comum, raiz quadrada, fatorial de P, logaritmo, teorema de Pitágoras, equação de qualquer grau… História antiga, média, moderna, contemporânea ou virtual? Ciências químicas, físicas, zoológicas, botânicas, humanas, biológicas — “o tecido epitelial da rã ou o teste do ‘qui’ quadrado?”. Prófase, metáfase, anáfase, telófase ou cinemática, estática e ótica? Cálcio, estrôncio e bário ou bico de Busen? Passé composé ou tag question? Primeira ou segunda declinação: a, ae, ae, an, a, a ou us, i, o, um, e, o? Nominativo, genitivo, dativo ou acusativo, vocativo e ablativo? Bam, bas, bat ou bamus, batis bant? (Viu, dona Zilda? Não me esqueci… E faz mais de quarenta anos, meu Deus!).

Nem do Hino a São João, da Mariinha, eu me esqueço: Ut quanti lexis; ressonari fibris; mira gestorum; famuli tuorum; solve poluti, labii reatum; Sant Joanis… Na primeira sílaba de cada verso, as notas musicais. (A ortografia está pulverizada na memória; tenha dó, se errei aqui ou ali.).

Tudo no rascunho. Depois, era só passar a limpo no caderno espiral ou brochura – o que já era uma forma de estudar. O de aritmética vinha quadriculado. Caneta? De pau com pena mosquito. No mais, um caderno de caligrafia, outro de desenho e os livros, régua, compasso, esquadro. Não existiam essas calculadoras e ninguém seria louco de carregar uma Borroughs ou Facit para a sala de aula — atestado de burrice: não saber a tabuada era uma vergonha!

Papel de pão, porque o pão era enrolado numa folha de papel acinzentada e não em saco. Nada se perdia, tudo se aproveitava. Máximo de requinte: encapar livros e cadernos com papel impermeável – plástico era chique demais. Não era todo mundo que gostava de lancheira a tira-colo, com aquele buraco para passar o gargalo do guaraná caçula e sua tampinha furada com prego.

Agora, é só ler a reportagem da Sammya Araújo, que saiu aqui no nosso “Correio” de sexta-feira passada, para ver o que fazem com seus filhos, na escola e na telinha. Quanta frescura nessas mochilas de inutilidades! Hoje, eles respeitam mais a Xuxa, Sandy&Júnior, as meninas superpoderosas, hello kit, homem-aranha, mulher-serpente (ou é o contrário?), erri porter, barbie, san rio, fada sininho, piter pan, a bela (a fera, não?) nem o belo, pelamor de Deus!.

Depois, claro, ninguém agüenta carregar tudo isso nas costas. Tem de ir de carro. Por isso, as portas das escolas estão congestionadas. A turma ia de bonde, bicicleta, a pé, mesmo, ou de carona com amigos ou nos carros dos professores.

Uma vez, o Bugue, grande Roberto de Andrade!, colou um retrato da atriz Lee Remick no caderno. Dona Eclair viu e disparou uma grande verdade: “Duvido que ela ensine História melhor do que eu…” E alguém emendou: “Duvido que ela seja mais linda do que a senhora…” Foi aplaudido. Jamais vou me esquecer do sorriso que ela deu a caminho da mesa. Ela merece.

Pregado no poste: “O Aerolula faz vôo pinga-pinga?”

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