Pagou?

O pilantra do Carlos Imperial costumava dizer que preferia ser vaiado num Cougar do que aplaudido num ônibus. Pode ser que algum dia eu faça algo digno de ser aplaudido num ônibus. Da Cometa, de preferência.

Mas já vi gente aplaudida no bonde. Inesquecível. Chovia. E uma senhora subiu justamente onde não havia vaga em nenhum banco, embora houvesse “cinco lugares em cada banco”, como vinha escrito atrás do encosto de cada um – em vermelho sobre o verniz; Lembra? Delícia! E das cortinas que os cobradores baixavam para proteger os passageiros em dias de chuva? Pois foi exatamente o mais querido cobrador de bonde da história, o seo Vignatti, que protagonizou a cena e puxou palmas para um passageiro que viajava no Bonde 3, na frente do Instituto Agronômico. Aquela senhora saltou do estribo para dentro do bonde e não tinha onde se sentar. Seo Vignatti, sensível e brincalhão como ele só, gritou lá da “cozinha”: “Como é cavalheiro? O senhor, mesmo, com jeitão de manequim do Di Láscio. Não vai se levantar para esta ilustre senhora se acomodar?” Roxo-escuro de vergonha, o homem se levantou e a mulher se acomodou. E seo Vignatti pediu: “Palmas para a educação deste cavalheiro!”. E o bonde inteiro aplaudiu. (Puts! Como era bom viver em Campinas!).

Você já foi aplaudido por gente que nunca viu? Em ‘cena aberta’, como diz a Eva Wilma? Sensação esquisita, Aquela santa que mora aqui em casa levou-me ao supermercado (para empurrar o carrinho), na véspera da final do Campeonato Brasileiro. Na hora de pagar a conta (é a santa quem paga), a menina do caixa ofereceu um cupom e pediu que eu o preenchesse com um sonho secreto. Sonho meu. Falei baixinho para a moça: “É bom você escrever, porque aquela santa senhora jamais concordará com o meu sonho. Ponha aí: ‘Que o Corínthians jamais seja campeão de coisa alguma!’”

Nossa! Todo mundo bateu palmas. A menina do caixa ao lado ainda ajudou: “Se o Santos ganhar amanhã, você leva a casa, o carro e a TV do concurso sem concorrer!” Nesta terra de italianos quatrocentões há milhares de desafetos do Corinthians. Mas foi aí que a tragédia então se deu. A garota colocou meu cupom na urna e perguntou: “Você é santista?” Orgulhoso, respondi: “Não. Sou campineiro, torcedor do Guarani.” Mas tomei uma vaia! E não foi por ser campineiro, não… Um garoto, aproveitando que o pai dava dois de mim, emendou: “Guarani porcaria! Vergonha! Vai ver, pagou pra não cair!”. E fui ouvindo até em casa: “Bem feito! Corinthiano nunca passa por esse vexame!”.

Pregado no poste: “Detesto futebol!”

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