Paciência

Hay que tener paciência com certas atitudes. Nunca se sabe o que vai na alma e mente das pessoas. Parece que virou moda. Semana passada, a prefeitura de Campinas retirou oito toneladas de lixo da casa de uma mulher aí no Jardim Santa Lúcia mais doze de outra, no Jardim Samambaia. No mesmo dia, aqui em Ribeirão Preto, encontraram 33 toneladas de lixo no quintal de uma senhora. Pior: ela, coitada, colecionava escorpiões, — mis de mil os fiscais contaram! –, e seis cobras. Diante do espanto dos homens da vigilância sanitária, ela falou que fôra picada nove vezes, mas nunca procurou médico, porque “doeu só um pouco e depois passou”.

Três mulheres. Num passado distante, um senhor já bem idoso tinha costume parecido em Campinas. De família tradicional, um dos filhos era dentista, outro engenheiro, a filha, professora universitária, o caçula, alto funcionário público federal. Todo começo de noite ele saía com um grande saco de estopa, desses de expor batatas em porta de armazém, e começava a catar lixo pelas ruas.

Durante o dia, ia às compras. Mas sempre arrumava encrenca no comércio – mania de que o estavam enganando no troco, no preço, no peso, na quantidade. Ali no Mercadão, comprava camarões miúdos em conserva, embalados em saquinhos plásticos, e passava horas contando quantos vinham, para saber quando custara cada um! Dava pena. Pouco se conhecia, como pouco ainda se conhece, dos mistérios da mente humana. Volta e meia aparecia ferido no rosto, nos braços – eram comerciantes e outros impacientes e ignorantes da condição daquele coitado, que o escorraçavam a cada confusão. Não se concebia que alguém agindo daquela forma não sabia o que estava fazendo. Morreu no banho, eletrocutado numa engenhoca que fizera para sair água quente do chuveiro sem que o relógio de luz registrasse o gasto.

Nessa época, o filho servidor federal já dava sinais parecidos. Mas de sovinice. Voltava da repartição para casa com o corpo enrolado em papel higiênico escondido pelas calças e camisa. No bolsos, pó de café, sabão em pó, bombril, tudo embrulhado em trouxinhas de guardanapos de pano. Não se envergonhava – com orgulho exibia aqueles furtos aos vizinhos, que o viam chegar nos finais de tarde. Autêntico personagem de Lima Barreto.

Nem há como convencê-los a mudar de vida. Sentem-se felizes assim.

José Maria Marin, último governador biônico de São Paulo, viveu drama parecido. Seu pai, o lendário boxeador argentino Jack Marin, vivia num cubículo no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, e durante o dia enchia sacos e sacos de lixo pelas ruas em torno do Largo Treze de Maio. Enquanto isso, o filho governava o estado mais rico do País.

Roque Melilo, milionário campineiro que doou um fortuna em dólares para a cidade nos anos 70s, suficiente para construir a biblioteca que leva seu nome atrás do Palácio dos Jequitibás, também morava num cubículo em Nova York, cercado de inúmeras obras de arte – se bem me lembro, parte doada ao MoMA (Museum of Modern Art) da capital do mundo.

É certo que alguns se podem tornar perigosos, além de dementes, principalmente quando têm o poder. São os que querem convencer a sociedade, por exemplo, de que Fidel Castro e Pinochet são democratas, humanos, progressistas, ou de que Getúlio Vargas foi um estadista. Ou como o filho do polêmico deputado federal Jair Bolsonaro, vereador na cidade do Rio de Janeiro. Ele foi eleito vice-presidente justo da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Suas bandeiras de luta: pena de morte e maioridade penal aos 16 anos!

Pregado no poste: “Na ditadura, religioso americano na Amazônia era agente da CIA; agora, é agente do MST?”

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