Ouvindo Rádio

Às vezes, a culpa nem é deles, mas deste belo idioma que nos obriga a falar assim, escrever assado e pensar cozido. Para quem ouve rádio com atenção, é inevitável perceber erros assombrosos. Os mais divertidos vêm da necessidade de improvisar, da pressa, de narrar o que está acontecendo, mas escapou da memória – não sei como locutores de futebol agüentam esse pique. Fiori Gigliotti, para não se perder, deixava acontecer para contar depois (a torcida sempre gritava bem antes dele). Pedro Luís era perfeito, em cima do lance, riqueza de detalhes. Edson Leite, o que mais emocionava, não estava nem aí: inventava o jogo na cabeça dele e descrevia a imaginação. A taça fica com José Silvério: grita gol antes de a bola entrar e não falha.

Aqui, uma coleção anotada nos últimos anos:

“Paulo Bayer não marcou o primeiro gol, agora tentará o segundo.

Televisionalmente falando, não percebi se foi pênalti.

Ele permutou o posicionamento.

O Palmeiras não pode ser bom e mau; futebol não é binário!

O zagueiro está massageando seu membro em pé.

Do gramado, fala Gualberto Monclair, onde acontecem acontecimentos: ‘Chove e os torcedores abrem os guarda-chuvas, na maioria, pretos’.

A bola bate na bunda de Bassu e sai para escanteio.

— Chove no estádio Jaime Cintra, Castilho?

— Agora, deu de dar fuzilo, Osmar!

A ‘pretendência’ do Sertãozinho nesta tarde é a vitória

Falamos da cidade de Altinópolis, que tem esse nome por ficar em lugar muito alto.

Remédio na farmácia Bilac é tão barato que dá gosto ficar doente.

Tome sua gripe e mande Doril pro inferno.

Se persistirem os sintomas o médico deverá ser consumado.

Radionovela: ‘Aí não, doutor! Aí não!’

A menina foi atacada por um ‘ênxame” de abelhas.

— Do Primeiro Distrito fala o solerte repórter Faro Fino.

— Pois é, caro Gaudério. Os ladrões entraram na fazenda do deputado Otávio Carvalho e levaram espingardas, munição, jóias, uma certa quantidade de reais, uma grande quantidade de dólares e alguns objetos que a polícia não quis revelar.

— Cem anos de perdão, Faro Fino… Cem anos…

(Gaudério foi pra rua.)

— Zuleika, agora falamos com a vítima dos bandidos.

— Pois não, Adelair!

— O que os bandidos fizeram com você?

— Eles me esmurraram e me forçaram a passar por um boquete…

— Por favor, Adelair, peça para a vítima definir o que é boquete.

(Longo silêncio no ar. O diretor entra no estúdio para expulsar a apresentadora, aos berros: ‘Quarenta dois anos, três casamentos, dois filhos e não sabe o que é boquete! Tenha dó!’ Indignada, no dia seguinte, a apresentadora Zuleika leva a vítima para falar com o diretor que a demitira. “Explica para ele o que os bandidos fizeram com você, por favor:

— Eles queriam que eu entrasse numa boca de lobo.”

Pregado no poste: “O Aurélio ensina: Boquete — entrada ou abertura estreita’”

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