Os orelhões emudeceram

Nada a ver com orelhas que falam nem bocas que ouvem.
Há trinta anos, o Correio Popular deu um susto nos quartéis do Quinto Grupo de Canhões Antiaéreos, o 5º G-Can, e do Primeiro Batalhão de Carros de Combate Leves, o 1º BCCL. E no comando da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, a Especex, também. Ali, os linhas-duras misturados a militares de boa índole se amoitavam para trucidar qualquer manifestação alusiva ao comunismo. Nas três unidades, se alguém pronunciasse a palavra “vermelho” já era suspeito.
Uma livraria, não me lembro se a “Vamos ler”, teve de tirar da vitrina cinco livros de capa vermelha que exibiam a inscrição de um a cinco, em algarismos romanos. Os trogloditas julgavam ser mensagem cifrada de obras marxistas. Eram apenas livros de matemática. Autores russos, mas matemáticos; não sintomáticos comedores de criancinhas, apreciadores forçados da culinária stalinista.
Nos quartéis, a manchete do Correio soou como alarme de invasão soviética: “Os vermelhos estão chegando!”. E estavam, mesmo. Os primeiros telefones a serem instalados nos orelhões da cidade eram vermelhos, movidos a moedas que tinham um risquinho no meio (desculpe a pieguice, mas não sei descrever melhor a dita cuja). Quando chegaram, foi uma sensação – e um alívio para donos de padarias, farmácias, botequins, lojas e butiques, onde havia os telefones particulares mais públicos de Campinas.
Não demorou e os orelhões se tornaram o alvo favorito dos vândalos da cidade, mais atacados a socos, chutes, pauladas e sprays do que a porta do banheiro masculino do Mercadão, poltrona de cinema, luz de poste e o que resta do estádio do Mogiana.
Exatamente trinta anos depois, a repórter Wilma Gasques anuncia, aqui mesmo, o começo do fim dos orelhões – que resistiram a todos tipos de agressão, mas estão sendo abatidos pelos celulares. Ninguém mais liga para eles nem se liga por eles. A tecnologia inventou o orelhão de bolso. E depois do celular?
Pregado no poste: “Alô? É engano. Eu não tenho telefone!”

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