Os normais

Campinas teve a turma da faquinha. Já falei dessa molecada espetacular numa dessas nossas conversas. Eram menores abandonados, recolhidos e amparados pelo “Abrigo Dom Nery”, que vivia de doações de empresas e pessoas interessadas em melhorar a vida do próximo. O abrigo que homenageava o primeiro bispo de Campinas ficava no Taquaral (naquele tempo, lá… no Taquaral), pelas bandas da Avenida Nossa Senhora de Fátima, perto do Açúcar Pérola – aquele do “saco azul, cinta encarnada”. Logo de manhã, eles, em grupos, percorriam as ruas de paralelepípedo – e quase todas eram – para cortar o mato que brotava entre as pedras. Muita gente boa foi da faquinha e se orgulha disso. A meninada anunciava a chegada com uma cantiga: “Sou da turma da faquinha, vou limpando esta rua, como se ela fosse minha…” Depois da limpeza, as aulas.

Agora, o cientista Evaristo Miranda, pai do Daniel (já sabe quem é?) conta-me uma história ótima, edificante, que mostra a força e a grandeza do ser humano – não importa sua condição. Uma lição para certas figuras que ‘trabalham’ para dona Izalene. (Dona Izalene é a prefeita daqui.)

Foi assim: você sabia que alguns dos cemitérios de Campinas são varridos, de ficar bem limpinhos, todas as manhãs, por grupos de rapazes, já maiores, abrigados pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais? É, da Apae. Depois da limpeza, eles têm aulas de alfabetização em salas nos próprios cemitérios. Mas nestes tempos de secura braba, vento, que parece de outono, derruba folhas, galhos; leva sujeira pra lá e pra cá; levanta um poeirão; deixa os cemitérios em situação deplorável. Sábado e domingo, como não há limpeza, acumula mais poeira, papéis, folhas, galhos, sujeira.

Foi aí que um administrador desses cemitérios tratados pelos rapazes da Apae decidiu pedir socorro à Setec. E a Setec, diz o Evaristo, mandou um grupo de limpeza. Lembra do “batalhão de limpeza”, do início da carreira do Renato Aragão, na TV Excelsior? Pior. Fizeram tamanho escarcéu com a sujeira, que ficou mal para visitantes e quem acompanhava sepultamentos. O Evaristo viu um jovem da Apae chorando diante de um daqueles da Setec chegando com o lixo perto do latão e deixar tudo do lado de fora.

Consta que o administrador daqueles cemitérios ligou para a Setec e despejou: “Vocês nunca mais me mandem esse ‘normais’ para cá! Eles não sabem nada de limpeza!”

Como comentou o cientista, a Setec conheceu a eficiência dos “deficientes”. As aspas, eu colocaria só no pessoal da Apae.

Pregado no poste: “O Culto à Ciência faz 130 anos. Em 22 de novembro, vai rolar a festa. Vai rolar.”

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