Os motivos de piadas

A gargalhada mais gostosa da Elis Regina está num disco gravado em um dos primeiros programas “O Fino da Bossa”, em 1964. Foi quando ela e a platéia ouviram, espantados e extasiados, “Ai meu Deus, quanta moça; ai que fome que eu tinha…” Era o caipira de Ourinhos Ary Toledo cantando seu primeiro sucesso, “O comedor de gilete”, para um público que jurava estar aplaudindo mais um fenômeno nordestino, “lá do meu Ceará”.

Esse Ary, 40 anos de carreira este ano, deu uma aula do que é de como se faz humorismo (ou, no caso, tragicomédia?) num lugar apropriado, o estúdio da TV Assembléia Legislativa de São Paulo. Não deixou por menos: “Num restaurante, o freguês quis saber porque a carne de um político brasileiro corrupto custa mais do que a de um peru, vitela, javali…” O garçom desafiou: “O senhor agüenta o cheiro na hora de limpar um bicho desses?!”

Depoimento antológico. Para ele, o Brasil faz as melhores piadas do mundo. O próprio país favorece: “Em São Paulo, não se vê um limoeiro no Bairro do Limão; a estátua do Duque de Caxias fica na praça Princesa Isabel; não há um álamo nas alamedas da cidade e o cidadão que não tem nada a declarar numa declaração de renda tem de declarar que não tem nada a declarar.”. O Corínthians, ele lembrou, foi piada durante 23 anos. Depois que voltou a ser campeão, acabou a graça. Assim são os países desenvolvidos: “Que tipo de piada pode se fazer na Dinamarca, na Suécia, na Suíça? Não vai ter graça nenhuma! Aqui, português, político, adultério e papagaio não faltam.”

De fato. E falou da falta de criatividade do humor inglês, por exemplo. “Eu a machuquei?”. “Não, por quê?”. “É que você se mexeu…”. E das duas piadas mais curtas das 60 mil que ele conhece – três palavras cada uma: “O guarda! Guarda…” e “O tira! Tira…”. Contou nos dedos os humoristas que restam no País: ele, Jô, Chico, Dercy e Golias; e os dois que surgiram nos últimos 40 anos: Tom e Pedro “Capitinga” Bismarck.

Relato emocionante dos dois melhores shows que fez na vida: “Entrava no palco, cortina ainda fechada, o funcionário do teatro bateu no meu ombro, e disse que minha mãe acabara de morrer em Ourinhos. Em pleno show no Teatro João Caetano, Rio de Janeiro, disseram que minha melhor amiga, a Eliste Cardoso, havia morrido e que o corpo seria velado ali. Na saída, uma fila de gente rindo e outra de gente chorando, aguardando a chegada da Divina.”.

Pregado no poste: “Só bloquear os bens? Tem de bloquear os males”

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