Os deficientes

São pessoas magníficas. Preste atenção nessa gente, porque vivem dando lição de vida, de amor e dedicação. É a fé.

Há muito tempo, a TV Educativa do Rio de Janeiro exibiu um filme em que aparece uma moça desesperada, porque brigou com o namorado. Em outra cena, uma madame se descabela, porque um gato lhe desfiara as meias de náilon. Um jovem executivo blasfema diante o pneu furado em plena avenida. Outro, porque uma chuva lhe desalinha os cabelos. Uma dona-de-casa quer esganar o filho que derramou o leite sobre a mesa, no café da manhã. De repente, tudo muda: uma seqüência de pessoas felizes, de bem com a vida, mostra um garoto jogando basquete, uma menina nadando, um homem trabalhando numa fábrica de embalagens. Todos sorrindo — e como é bonito o sorriso deles, já reparou? — todos deficientes físicos.

Ainda esta semana, a nossa sensível Ana Paula Scinocca e o Jornal Nacional mostraram para Campinas e para o Brasil quanto vale um campineiro, o Marcelo Sanches, 29 anos, professor de futebol, vítima da paralisia infantil. Ele abria a marretadas o seu direito de viver melhor numa cidade governada por quem lhe dá as costas. Era a coragem de ser humano diante da covardia de desumanos. Desumanos e criminosos, que não fazem cumprir uma lei banal e óbvia, que obriga a facilitar a circulação de portadores de deficiências. Só o fato de uma comunidade precisar de que se façam leis para favorecer a vida de pessoas desiguais já é uma lástima.

Foi ali no Mercadão, histórico reduto de deficientes de Campinas, que o Marcelo Sanches deu um show de vida. Quem não se lembra da dona Olésia, de muletas, vendendo jornais, perto do boxe do seo Blascovi? Não me esqueço de um senhor que vendia canetas e pentes, deitado em uma cama de rodas — só mexia a cabeça e as pontas dos dedos. Mas sempre tinha um sorriso e uma boa conversa para todos. Comprei dele minha primeira esferográfica, uma novidade na época.

E de Zelão, o engraxate, ao lado do açougue do seo Pires, pai do Cilinho e da Neide Ester? Outro, de quem não me recordo o nome, era brincalhão até com os pacotinhos de amendoim que vendia para a molecada e balzaquianos. Para chamar a atenção destes, a propósito, até colocou um cartaz em sua banquinha: “Motor de arranque, cincão o saquinho”…

De muletas, bengalas, andadores, cadeiras de rodas, estavam ali, diariamente, na luta pelo pão e nos ensinando a viver, sem se entregar, jamais.

Subindo, em direção à Rua Ernesto Kuhlmann, boa parte dos camelôs vizinhos ao demolido Grupo Escolar “Corrêa de Mello” era de deficientes. Nenhum pedia esmola. Todos trabalhavam, vendendo desde máquinas de moer carne e bolinhas de gude até gravatas e brinquedos de corda.

O Marcelo conta que ainda implorou à Prefeitura que se cumprisse a lei e construíssem aquele acesso, pelo menos um!, para deficientes. Como resposta, o deboche.

Você, Marcelo, não é deficiente. Deficientes, amigo, são os nossos governantes.

Pregado no poste: “Que vergonha, seo Pagano!”

 

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