Os bancos do Bosque

Incrível a descoberta da “propaganda perpétua”, que ficou nos bancos do Bosque dos Jequitibás, feita pelos repórteres Antônio Fornazieri Júnior e Nerivelton Araújo, aqui no Correio do dia 16. Elas são do tempo do Nero. Não o imperador que incendiou Roma, mas da onça, que vivia numa jaula tão insignificante, andando pra lá e pra cá, que pisava sempre o mesmo lugar, abrindo um buraco feito pelas patas no chão que um dia tinha sido de pedra e cimento.

Esses anúncios esculpidos no granito que reveste os bancos devem ser, também, dos tempos do Restaurante Chinês, onde os pratos eram acompanhados pelo som dos irmãos di Túlio, João, Pompeu e Luizinho. Do tempo em que o Bosque era longe da cidade — tão longe, que só aparecia depois de uma viagem até o ponto final pelo bonde 12. Viagem que começava na Barão de Jaguara, em frente da Galeria Trabulsi. Quando a Rádio Brasil e seu auditório ficavam no terceiro andar dessa galeria, que ligava a Barão à Rua Lusitana. (Ainda existe a Galeria Trabulsi? A Brasil continua lá? Aquela loja de aparelhos ortopédicos, que funcionava no térreo, também? E o supermercado da Santa Casa? Lá ainda se vendem ostras frescas? Será que eram frescas, mesmo?).

Bem, vamos passear no Bosque. Vamos de bonde; nesse não, esse é o “11”, que vai para Cemitério da Saudade. Nem pense em viajar no estribo, porque o “seu” Vignatti não vai deixar. No estribo, só ele se arrisca. “Meu amigo, está escrito aí, cinco lugares em cada banco, para que morrer antes da hora?” Ele é o melhor e mais atencioso cobrador de bondes do mundo. Trata os jovens por “senhor e senhorita”; os homens, por “cavalheiro” e as mulheres, feias ou bonitas, por “madames”. Lembra, Maria Inês? Pois é, para o “seu” Vignatti, os campineiros são as pessoas mais importantes do mundo. Toca o bonde, “seu” Vignatti: quero chegar ao Bosque, “antes que seu lobo venha…”.

Aqui estão os jequitibás que marcam esta cidade. Há macacos, pavões, araras, jabutis enormes, peixes, jaguatiricas, pássaros, porco-espinho, serpentes, avestruz, seriemas, jacarés, cisnes… Tudo em dez hectares, comprados para a cidade em 1915 pelo prefeito Heitor Penteado. Pertencia a Francisco Bueno de Miranda.

Vamos nos sentar num desses bancos aí, que o Fornazieri e o Nerivelton vão mostrar daqui a uns 40 anos. A Ezequiel, acredito, vai continuar ali no Largo da Catedral — afinal, quem vai cuidar da bandeira no altar da Matriz? A Ótica Santa Rita, do “seu” Roberto, também, lá na General Osório. Estou desconfiado de que o nome da Casa Anauate, nesse banco aí ao lado, ficará tão desbotado no futuro, que o Fornazieri lerá “Anariate”. Sei, não. É, a Casa Lulu, o Barão Auto Rádio e a Fábrica de Camisas Jota D devem acabar. Acabaram, mesmo?

A oficina do Antoninho Camino da Silva também vai sumir? Que pena! Ela fica ali perto da fábrica de Chapéus Cury, do “seu” Miguel, da farmácia do “seu” Júlio, do armazém do Beletti e dos meus barbeiros, o Zé Turco e o Zé do Norte. O quê?! Eles acabarão também? Mas a fábrica ficará, né? A oficina vai acabar. Ele conserta o câmbio do Cadilac “rabo de peixe” do “seu” Miguel. O Antoninho também entende de Oldsmobile e Pontiac. Alguém se lembrará desses carrões daqui a 40 anos? Esquecerão? É, mas dos meus amigos, todos vizinhos aí do Antoninho, eu não me esquecerei.

Vamos embora, porque o lobo está vindo, o “lobo do tempo”.

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