Ora, direis, comer as vacas!

“Touro bravo e boi prenhe não passam de vacas, ainda que os chamem de bois”. É o troco que encontram os camponeses cubanos para burlar a obrigação de vender leite ao Estado. Esse é um dos fatos mais surrealistas da atualidade na ilha. Esse animal, com úberes e chifres, é tão sagrado lá como na Índia. Em Cuba, os burocratas, com seus regulamentos e proibições, celebram o “culto à vaca”. Sempre nos deparamos com alguém a dizer: “Você sabe desde quando não como carne de vaca? Pois tenho duas fêmeas – Mazorra e Josefina — posso até inseminá-las, mas não posso abatê-las. Se uma adoece ou se acidenta, tenho de pedir ao governo a presença de um veterinário e um inspetor, para que me dêem permissão. Mas, cuidado! Não posso nem comer a carne. Tenho de esquartejar o corpo e queimar até a pele. Se não o fizer, é encrenca na certa.”.

Viajava eu na cabine de uma locomotiva de fabricação soviética (meu pai era maquinista), quando vi algo que se movia  sobre a linha centenas de metros adiante. Era una vaca, amarrada de forma tal que só a cabeça estava sobre o trilho. Ela mugia e se contorcia, tentando, sem conseguir, se soltar. Com meus inocentes dez anos, gritei para o meu pai:

— Pára! Há uma vaca presa à linha!

Mas um trem cargueiro com trinta vagões não se detém facilmente. Meu pai, com a serenidade de quem já viu coisas piores sobre os trilhos, explicou:

— Não se preocupe, os próprios donos as amarram para que os trens as matem e eles possam comê-las. E só quando eu as tropelo assim, eles podem desfrutar de sua carne.

Segundos depois, o baque surdo me confirmou o que o sacrifício havia se consumado. Olhando para trás, vi um tropel de gurís sorridentes rumo ao cadáver do bicho.

Creio que passadas mais de duas décadas daquele “suicídio”, os camponeses cubanos tenham se tornado habilíssimos amarradores de vacas, para comer… carne!”

Este relato absurdo, mas verdadeiro, está no conto “Bezerra macho”, do escritor Angel Pérez Cuza. É que Cuba vive tamanha liberdade de expressão, que ele edita suas histórias na Espanha.

Pregado no poste: “Em Cuba só se pratica tortura humanitária”

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