Ontem, rosado; hoje, dourado

Abusam da paciência do maestro; um dia, ele cumpre a ameaça daquele gesto da estátua e aí eu quero ver…

Agora, Carlos Gomes ficou dourado, perdeu o “bento”, como dizem os entendidos (no bom sentido). “Tão dourado, que resplandece”, conta a repórter Teresa Costa, terror dos medíocres. Bento, ela ensina, é o resultado da oxidação do metal, que dá à peça aquele tom esverdeado. Na casa da minha avó, chamavam isso de “zinabre”, depois que a gente cortava limão com faca que não era de inox. Inox, só em casa de rico. Ela (a estátua, não a Teresa… nem minha avó) foi feita pelo escultor Rodolfo Bernardelli em bronze acobreado. Toda essa polêmica, porque estão limpando a dita cuja.

Um que passou por ali disse que parece alegoria de Carnaval.

Olhe, que uma vez, o coitado ficou como Clóvis Bornay, em concurso de fantasia – categoria originalidade. Foi quando Campinas já perdia a inocência. Havia os “boys” do Café do Povo e os da Estátua, que se reuniam no bar Ponto Chic, da Rua do Sacramento. Ali, o sanduicheiro Jânio fazia sucesso com o seu “lanche do Jânio”: carne, provolone, vinagrete e dois salsichões. Depois, veio o chapeiro Mário, com o sanduíche “ferro-velho”.

Algazarras mil: jogar óleo nos paralelepípedos da Thomaz Alves para esborrachar no poste os carros envenenados, que vinham à toda da Barão; apostar no dadinho a namorada e, às vezes, dinheiro, para engrossar a mesada do papai. Esse “cassino de emergência” funcionava no fundo do “Café” – seo Nagib fingia que nem via. Eu nunca vi…

A inocência foi-se de vez quando alguns daqueles “boys”, a bordo de um Fusca, trocaram a farra pela selvageria: laçaram uma garota na Campos Salles, numa tarde sábado, arrastando a coitada da Senador Saraiva até perto do Fórum. Acabaram presos na porta do Voga. Milagre: ela escapou. E eles… Filhinhos de papai, como se dizia, tinham papais poderosos ou amigos de poderosos. Era novembro de 1963. Vergonha e escândalo na cidade: deu no Repórter Esso, da Nacional do Rio!

A última ousadia aconteceu numa daquelas madrugadas. Despejaram baldes de tinta cor-de-rosa sobre a estátua do Carlos Gomes, que amanheceu como uma homenagem a Clóvis Bornay.

Começava pra valer a violência urbana em Campinas. E não parou mais.

Pregado no poste: “Está tão cara, que não há luz nem no fim do túnel”

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