O vaso que virou lei

A garçonnière do empresário quatrocentão ficava num prédio perto do Largo das Andorinhas. Janela de frente para o lugar onde existiu o mercado que abrigava aquelas aves. A janela do escritório dele dava para os fundos da Santa Casa de Misericórdia e, de esguelha, ele observava a amante. Se não me engano, da janela do gabinete do seo Pagano, no Palácio dos Jequitibás, dá para se ver a mesma paisagem.

Ela era advogada, uma das poucas a atuar no fórum de Campinas naquele tempo. Nada brilhante. Era mais conhecida pelas ligações com aquele empresário do que pelo despenho nos tribunais. Ligações, aliás, que eles julgavam discretas, do conhecimento de ninguém, além do porteiro do prédio. Ele a mantinha naquele apartamento e a visitava nas horas mais impróprias – melhor, mais improváveis. (Ou alguém ia à casa da amante às sete da manhã?). Tudo para evitar suspeitas.

O sinal para ele saber se ela estava lá era o mais manjado do mundo: o vaso de begônias no parapeito da janela. Só eles imaginavam aquela pista secreta. Por quatro dias seguidos, nada do vaso. Portanto, nada de ele aparecer. Mistério. Com medo de dar na vista, ele não cogitava nem passar na frente do edifício. Ela, como não tinha outro, nunca deu conta de tirar o vaso.

No quinto dia, ele abriu o jornal, “A Defesa”, ainda em casa, quando tomava café com a titular, e leu: “Vereadores votam hoje emenda ao Código de Posturas do Município, proibindo a colocação de vasos nos parapeitos e marquises de edifícios e sobrados da cidade. A medida se deve ao ocorrido no último fim-de-semana, quando um vaso de begônias caiu da janela do apartamento freqüentado pela advogada fulana de tal, quase acertando o ombro da filha do zelador.”

Para disfarçar, comentou a notícia com a esposa e ouviu dela: “Essa aí é uma tonta. Em vez de vaso, ela devia improvisar um varal ao longo da janela.”. Quando saiu para o escritório, ele examinou a janela da sala da própria casa pela primeira vez na vida. Enquanto viveu, nunca teve coragem de perguntar para que serviam aqueles dois preguinhos, um de cada lado da dita cuja.

Pregado no poste: “Não confunda pires de oliveira com pratinho de azeitonas.”

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