O último romântico

Todo fim de tarde, ele aparecia no campinho da Hércules Florence, de terno e gravata, camisa de seda, sapatos finíssimos. Tirava tudo e, só de short, entrava em campo. Às vezes, trazia um pacote grande e abria atrás do gol: calças, camisas, meias e lenços de primeira qualidade que distribuía entre os amigos de “racha”, quase todos moradores no cortiço da Vila Bela, ali onde a José Paulino e a Barão Geraldo de Resende se juntam até hoje. Jamais o vimos armado. Falou para a polícia que o prendeu na noite de terça-feira, em Americana, que está com 58 anos, mas já chegou pelo menos aos 65 – mais de 33 passados nas celas da vida.

Aos 16, recolhido em um abrigo de menores em São Paulo, saiu com um jipe da polícia e só parou no largo do Mercadão, seu reduto e morada, que dividia com a avó, perto do bar do Clube Ubirajara. estar o primário no Grupo Escolar Municipal “Corrêa de Mello”, ali mesmo no Mercado. Diz a lenda que os pais eram advogados da Caixa Econômica Federal.

Adorava roupas chiques. Assíduo freqüentador da Renner, Di Láscio, R. Monteiro, Piccoloto, Ezequiel, Clark, Firenze, Etam, Garbo… Mas só de madrugada. Um dia, chegou àquele campinho com umas vinte calças Lee – coqueluche importada, cobiçada por onze entre dez boyzinhos do Café do Povo e do Ponto Chic. Todas furtadas de um contrabandista estabelecido no edifício Anhumas. Com as calças, centenas de cédulas de mil cruzeiros –- estampa de Cabral –- embrulhadas em maços de dez. O “Pingüim” (assim chamavam a viatura da Rádio Patrulha) parou na Hércules Florence, ainda de terra, e os policiais o chamaram. Para um bando de moleques assustados, ele tranqüilizou: “Já volto; sei o que eles querem.”. Saiu com o pacote de dinheiro e voltou trazendo só metade: “É isso. Quando souberam que ‘arrombaram’ o cofre da Renner, vieram logo pegar a parte deles…”.

Há algum tempo, eu soube, um policial safado quis “fazer o nome” em cima dele, prometendo caçá-lo. Esse último marginal romântico espalhou, então, que traficava drogas e tinha grande quantidade no forro de sua casa. O policial invadiu a residência, chegou ao forro atrás das drogas e foi atacado por enxames de abelhas. Traz marcas das picadas até hoje. Bem feito.

Antônio Vôlney dos Santos Ferreira, o Toninho Gato, está preso de novo, por furtar os ricos. E continua pobre. Também pobre de espírito, por não entender que não se mexe no que é dos outros.

Pregado no poste: “Cadeia não foi feita para cachorro. Nem para políticos corruptos?

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