O sonho

Qual a sensação de uma pessoa que passou 20 anos longe da terra em que viveu e de repente tem a chance de revê-la? Para um grupo de quatro homens, foi inesquecível. São Paulo fazia 425 anos e um dos objetivos daquela reportagem era provar a fama de “cidade que mais cresce no mundo”. O melhor jeito foi dar um choque. Com a devida licença da Secretaria de Justiça, tiramos do cárcere do Carandiru quatro presidiários que havia 20 anos estavam atrás das grandes, cumprindo pena sem nunca jamais ter saído para a rua, uma vez sequer em duas décadas. Tudo para mostrar quanto a Capital crescera naquele espaço de tempo.
O roteiro do passeio foi deles. Começou por uma volta de metrô, que nenhum conhecia. Depois, os quatro quiseram rever a Praça da Sé, já então emendada com a Praça Clóvis Bevilácqua, após a implosão do edifício “Mendes Caldeira”, o primeiro a ser implodido no Brasil. Na esquina da Rua Direita, um apontou para o nada e perguntou: “Onde está o edifício Santa Helena? Era na porta dele que vendíamos o que roubávamos”. Dali, foram para o estádio do Morumbi, que eles só viam pela televisão. Não era dia de treino do São Paulo, os quatro eram corintianos, e aquela imensidão os espantou. Para evitar o constrangimento do contraste, não quiseram esticar a “viagem” ao Parque São Jorge…
Almoçaram num restaurante da Avenida Santo Amaro. Três churrascos. O que pediu camarão à grega passou mal, devolveu tudo. “Há séculos havia me esquecido que gosto tem!”. Envergonhados, arriscaram um pedido: conhecer a Rodovia dos Imigrantes, obra iniciada e concluída quando já estavam presos. No alto da Serra do Mar, um susto e o medo. Um dos assassinos pediu para descer do carro e escalar uma encosta. O fotógrafo ficou apavorado. Arriscaram. Em 15 minutos, o homem foi e voltou. Trazia uma flor na mão e um sorriso. “Elas ainda existem; quando descíamos a serra, às vezes a pé, para pescar, colhíamos essa flor, que só dá por aqui, para amarrar na rede: dá sorte”. Alívio. E se ele foge?
Quase no fim da tarde, uma sugestão: “Alguém quer dar uma passada em casa?” Um não tinha mais ninguém. Dois ficaram com medo de encontrar a mulher com outro e o último demorou para responder. Diante da insistência, falou o que ninguém queria ouvir: “Por que você acha que estou há 20 anos lá na ‘pensão do seu Guedés’, tomando café de canequinha? Não tenho família, seu moço. Matei a mulher e meus seis filhos. Trinta anos de xilindró, para mim, será pouco. No meu caso, viver é lucro!”.
O retorno da aventura foi pela Zona Leste, àquela hora cheia de operários pelas ruas, cada um voltando para sua casa. E eles, voltando para cela. “Quando me livrar da cadeia, serei um desses aí”, disse, convicto, o que ia no banco de trás, já com 42 anos, não havendo a hora de ser livre, aos 47.
Um presente! O que vocês gostariam de ganhar de presente, no fim desta viagem? Rádio portátil; óculos escuros; um livro do Papillon, o fugitivo da Santé, infernal presídio da Guiana Francesa; uma chave. “Uma chave”? É, ela era tudo com o que ele sonhava todas as noites. “Quando sair da prisão, quero levar de lembrança a chave da minha cela, carregá-la no meu chaveiro, para ter certeza de que ela nunca mais será usada na hora em que eu me deitar”.

 

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