O sonho não acabou

Não sei nem por onde começar, se é que esta história tem começo. A celebração dos 125 anos do colégio “Culto à Ciência”, sábado, no ginásio da Unicamp, foi uma lição de vida, de amizade, de fé na vida. Desta vez, não uma lição só para nós, que lá estudamos e aprendemos, mas para este País, que não sabe o que está perdendo, ao desmantelar o modelo de ensino que lá aconteceu. Tudo o que esta terra precisa, desde vergonha na cara até amor próximo e fé na vida, vicejou naquele encontro de mais de três mil alunos e outros tantos convidados.

A gente daquela escola vive num infinito renascer – parece que a cada momento crucial da existência, se ouve o sinal para a próxima aula e todos se juntam em torno dos mestres que um dia entraram em nossas vidas para sempre. E muitos deles estavam lá, com a mesma energia e ternura, nos acompanhando, seja do céu ou na terra, sob a batuta do doutor Telêmaco. A eles devemos quase tudo o que somos. Ao ver de cima a quadra daquele ginásio, me veio a primeira impressão concreta do que é o Céu prometido na Bíblia.

Uma grande notícia, ainda inédita, nos encheu de alegria. Uma luta iniciada há dois anos deu o primeiro sinal de vitória. José Álvaro Moysés, secretário-geral adjunto do Ministério da Cultura, disse a cada ex-colega que encontrava que uma grande empresa vai restaurar nosso templo – que governantes de última categoria destruíram. Será uma restauração de ponta a ponta, para deixar aquele cenário sagrado com a mesma paisagem que um dia nos acolheu.

E nova luta agora se inicia: devolver ao “Culto à Ciência” a autonomia que os mesmos governantes roubaram de nós. Antes de sermos saqueados em nossas esperanças, o currículo escolar daquele colégio era formulado pelos próprios professores e não por decisões de políticos. Nossos mestres passavam por uma seleção rigorosa para merecer a honra de lecionar ali e o “Culto” teve um corpo docente que invejava o Brasil. Não basta as instalações serem restauradas; é preciso reformular os critérios de acesso ao magistério que ali se vai exercer e dar a esse elenco de eleitos salários dignos. O “Culto à Ciência” precisa, sim, ter de volta seu quase inexpugnável exame de admissão, para quem almejar estudar em suas salas a partir da quinta série.

Não se trata de elitizar essa escola. Mas transformá-la em modelo a ser seguido pelas demais. Um modelo que já existiu quando ela foi autônoma, única e diferenciada na Educação do Brasil. Um exemplo que não foi imitado, porque exige trabalho, caráter, moral, competência, dedicação à causa pública e amor à Nação. As autoridades, porém, seguindo sua peculiar indigência mental, em vez de melhorar as outras escolas à imagem e semelhança do “Culto”, decidiram nivelá-lo por baixo, destruindo o que havia de melhor para a juventude. Atitudes típicas de políticos.

No ano mesmo em que nossa escola teve sua autonomia roubada, John Lennon anunciou para o mundo: “O sonho acabou”. Será que era só dos Beatles que ele falava? Ou aquele triste brado foi para o mundo? Se ele tivesse estudado no “Culto à Ciência”, não teria chegado a essa conclusão. Para nós, o sonho não acaba, assim como esta história, que não teve começo nem terá fim, posto que é eterna. Depois que o sonho de John terminou, ele compôs “Imagine”. É, meu caro “sir”, imagine se todos fossem ex-alunos do “Culto à Ciência”. O mundo seria o que você sonhou.

Pregado no poste: “A aula vai continuar!”

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