O sonho e a realidade

Ethevaldo Siqueira, fera do jornalismo científico (é dele o primeiro livro escrito em computador no Brasil) e um dos pioneiros da informação sobre o mundo das telecomunicações, descreveu este sonho:

“Três gênios do rádio visitam minha casa. Ressuscitaram e apareceram. Imaginem meu espanto, superado apenas pela admiração que tomou conta desses três gênios da comunicação sem fio – o inglês James Maxwell, o alemão Heinrich Hertz e o italiano Guglielmo Marconi – diante da tecnologia que tenho à disposição no dia-a-dia. Pense na cara deles diante de todas as coisas que aconteceram no mundo das ondas eletromagnéticas nos últimos 100 anos. Meus equipamentos, embora relativamente comuns, foram suficientes para deixar os três boquiabertos, a partir do momento em que entenderam o que são e para que servem computadores, DVDs, home theater, celular, Internet de banda larga e redes sem fio Bluetooth e Wi-Fi que interligam essa parafernália. Fiz uma rápida retrospectiva do progresso da comunicação sem fio, sem a qual nem eu nem milhões de brasileiros poderíamos viver. Disse-lhes que somos escravos entusiastas da comunicação wireless, seja no celular, nas redes de nova geração, no rádio, na TV ou no satélite.”

O sonho do Ethevaldo trouxe-me à lembrança trecho desta velha crônica sobre o radialista Reynaldo Tavares e seu maravilhoso livro “Histórias que o rádio não contou”:

“…vem acompanhado de dois CDs com reproduções sonoras de grandes momentos da radiofonia brasileira. Resultado de quinze anos de pesquisas. O Reynaldo foi fundo na investigação. Começa no século 19, com as aventuras de Rudolf Hertz, Clerk Maxwell e Guglielmo Marconi, tentando fazer o telégrafo Morse transmitir a voz humana. Na época, coisa de louco. ‘Essa gente tem parte com o demônio’, diziam. Reynaldo Tavares descobriu o que nossa mestra Célia Farjallat ensina há tempo. A primeira transmissão de rádio do mundo aconteceu em Campinas, em 1892, três anos antes de Marconi. Façanha do padre Roberto Landell de Moura, então pároco da igreja do Carmo. Padre Landell ‘militou’ na então Matriz Velha, de 28 de outubro de 1892 a 1º de Dezembro de 1896. Por causa do seu invento, foi expulso da cidade. Por imposição do clero! Repetiu a façanha em Mogi das Cruzes — tocaram-no de lá. Depois, em São Paulo, fez uma transmissão da Avenida Paulista, ouvida no bairro de Santana. Foi expulso pelo bispo, dom Duarte Leopoldo e Silva. Espantoso: esse bispo é ancestral de Carlos Eduardo Leopoldo e Silva, um sócio do ‘marechal’ Paulo Machado de Carvalho na Rádio Jovem Pan! Não é demais?

Desiludido, o jesuíta Landell de Moura foi-se para Nova York. Lá, segundo a descoberta do Reynaldo, conseguiu patentear seus inventos: transmissor de ondas sonoras, telefone sem fio (avô do celular) e telégrafo sem fio. Tudo documentado. De volta ao Brasil, em 1905, tentou demonstrar a importância do rádio ao então presidente Rodrigues Alves, que o chamou de ‘maluco’. Dezessete anos depois, este país, sempre governado por gentinha, importou tecnologia para instalar equipamentos de sua primeira emissora de rádio. Em 1931, chamou Marconi para iluminar, de Gênova, a estátua do Cristo Redentor, usando ondas de rádio. Fiasco. O Cristo ficou pasmo com tanta ignorância.”

Domingo, liguei para o celular do mestre e companheiro Ethevaldo e ele atendeu com aquela educação de invejar o Papa. Em pleno domingo, estava na costa do Sauípe, e teve paciência e solicitude para me ensinar: “De fato, o padre Landell é precursor dos três e tem suas invenções patenteadas em Nova York. A única diferença é que ele não pôde colocar nada em funcionamento, porque foi perseguido em sua Campinas, em São Paulo e jamais foi reconhecido no Brasil.”

Mestre, você acha que esta cidade, berço da radiofonia e da fotografia, vai se preocupar em difundir a memória do padre Landell e Hércules Florence?  Aqui, mestre, a secretaria da Cultura debochou de Carlos Gomes e suas viúvas de Stalin homenagearam o genocida.

Pregado no poste: “Freud e a sexóloga Marta Suplicy explicam?”

 

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