O som do porão

Há uns vinte e poucos anos, o jornal New York Times mandava para cá seu novo correspondente – o Warren Hodge, apaixonado pelo Brasil, casado com brasileira, e hoje, um dos chefões do jornal. Vinha pela primeira vez. O choque foi escandaloso. O Hodge é uma antena.

Ele não entendia, por exemplo, porque lojas, lanchonetes, butiques, oficinas mecânicas, clínicas de médicos e dentistas, ruas, praças, avenidas, floriculturas, placas de trânsito, farmácias, calças, camisas, calçados, supermercados, estações de rádio, camisinhas, programas de televisão, livrarias, hospitais, hotéis, armazéns, carros, bairros, cidades inteiras – quase tudo – são identificados por nomes estrangeiros, principalmente em inglês.

Para quebrar o gelo, garanti ao Hodge: “Não se preocupe, que não se trata de nenhuma homenagem dos brasileiros à sua chegada. Também não se assuste, nem fique envergonhado se você vir brasileiros tratando você com a maior consideração e respeito, e aos próprios patrícios com a mesma distinção com que aquele carroceiro chicoteia seu cavalo. Brasileiro, meu caro, é assim: tudo o que vem de fora é melhor; todos os estrangeiros – menos os argentinos, com quem brincamos tanto – achamos que são melhores do que nós; enrolou a língua, damos mais valor e consideração. Esta é, ao mesmo tempo, a terra de ninguém e de todo o mundo, menos dos brasileiros.”.

Pedi a ele que escrevesse um artigo relatando seu espanto. O Hodge, até hoje um admirador do Brasil, mais do que nós, escreveu entre outras impressões que ainda estão na memória: “Será que aquela mãe sabe o que está escrito na camiseta da filha de dois anos – ‘I am a tramp’? O comerciante imagina que o nome de sua loja – Animals Jeans Club Corporation – não quer dizer absolutamente nada? Alguém aqui já experimentou o maravilhoso sabor do guaraná? Ah se ele fosse feito com açúcar mascavo! Por que no cartão de apresentação do encanador está escrito ‘Home Care’? No asfalto da Avenida Paulista, está pintado “Bus”, mas o que passa em cima se chama “ônibus”, jurou minha mulher. Olha, parece que a viagem ao Brasil ainda não terminou. Não ouvi Jorge Ben, Gal Costa, Dorival Caymi, Pery Ribeiro, João e Astrud Gilberto, Sérgio Mendes… Eles tocam tanto nas rádios FM lá de Nova York e nos discos que lá deixei… O som do Galeão é Supertramp, Saturday Night Live, Korgis, Chaka Khan, Marvin Gaye, Taco, Kim Carnes… Nem lá se ouve isso, mas aqui, nem no porão do aeroporto ouvem a música daqui!”

Pregado no poste: “Os excluídos excluíram dona Izalene!? E agora, o que faremos com ela?”

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