O retrato do velho, outra vez

O compositor João de Barro, o Braguinha, me aprontou mais uma. E só fiquei sabendo quando o Lito, ponta direita e esquerda que ajudou o Guarani a subir para a Divisão Especial, em 1949, me ligou e foi direto ao assunto: “Você escreveu uma besteira hoje… ‘Touradas de Madri’ foi composta pelo Braguinha e pelo Alberto Ribeiro em 1938 e não em 1950, como saiu na crônica.”. Como errei, corrijo, mas juro que o Braguinha falou que a música fez sucesso em 50, depois que o Brasil ganhou de 6 X 2 da Espanha, naquela Copa que perdeu para o Uruguai no Maracanã. Está certo que em 38 eu não existia e em 50, não passava de um projeto de gente. Acho que continuo projeto…

Mas conhecer o Lito, ainda que por telefone, foi uma lição. Ele sabe tudo de música popular brasileira e tem uma discoteca completa dos tempos em que a música tinha letra e os intérpretes, voz. Ele até requintou os detalhes da história: “Esse disco, bolacha preta de 78 rotações, foi gravado pelo cantor Almirante, para a gravadora Odeon, em selo azul, e tem o número 11.550. Está no lado ‘B’; no lado ‘A’, a música é ‘Yes, nós temos banana’. E digo mais: ‘Touradas de Madri’ não pôde entrar no concurso porque a comissão julgadora entendeu que era um passo doble e não uma marchinha típica para o Carnaval.”

Lito é o apelido do bugrino Paschoal Galati Filho, dono, há 32 anos, do “Restaurante Musical Dançante Arraial”, aí na estrada de Sousas, perto do Concórdia, do lado esquerdo de quem vai para o distrito do J. Toledo. Lito estava na reserva daquele time do Guarani que derrotou o Batatais, na Rua Javari, quando o Bugre subiu e nunca mais caiu (perdão, pontepretanos): Arlindo; Orestes e Grita; Godê, Luís de Almeida e Alcides; Dorival, Piolim, China, Renato e Xavier. No treino, lá no velho “Pastinho” da Rua Barão Geraldo de Resende, Lito conta que chutou uma touceira, torceu o pé e ficou de fora da decisão. Disse a ele que até hoje, o povo aqui de Batatais fala que a vitória do Guarani foi roubada. Ouvi um silêncio estranho no telefone…

Depois, deu uma explicação nova: “Sabe o que foi? É como você contou naquele crônica. O asfalto estava chegando a Campinas naquele ano, Batatais ficava muito longe, estrada de terra, e os times grandes de São Paulo não estavam a fim de comer poeira toda vez que teriam de jogar lá. Foi a pressão dos grandes que prejudicou o Batatais, que tinha um timaço.” Pensei comigo: “Vem contar essa história em Batatais pra ver se você sai vivo de lá”. Até hoje, eles não engolem aquela derrota.

Disse que o Braguinha, um gênio musical, me aprontou mais uma porque, há uns vinte anos, participando do programa “Vox Populi”, da TV Cultura, na hora de fazer uma pergunta a ele, confundi outra obra-prima desse compositor (“O Rio amanheceu cantando”) com “Cidade Maravilhosa”. Em vez de perguntar “O Rio ainda amanhece cantando?”, troquei as bolas e mandei ver: “Braguinha, o Rio ainda é uma cidade maravilhosa?” Nossa! Ele quase me engole: “Você está louco? ‘Cidade Maravilhosa’ é do André Filho, rapaz!”. E cantou “O Rio amanheceu cantando” até o fim, para eu nunca mais me esquecer.

Pregado no poste: “E Campinas, seo Pagano, ainda é uma cidade maravilhosa e amanhece cantando?”

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