O repouso das águias

Cercados por uma molecadinha de seis a treze anos, acabamos de ver no maior silêncio, respeito e vibração três filmes do seriado “O Vigilante Rodoviário”, com o ator e ‘tenente’ Carlos Miranda, seu cachorro Lobo, sua Simca Chambord e a fascinante moto Harley Davidson. Por causa dessa máquina, e pela farda impecável, de jaquetão, botas de canos longos, coldre e quepe com óculos protetores, muitos jovens dos anos 50 e 60 realizaram o sonho de ser policiais rodoviários.

A corporação tinha acabado de nascer, para patrulhar as recém-pavimentadas e duplicadas rodovias Anchieta e Anhanguera. E boa parte do contingente era de universitários e profissionais liberais atraídos pela jornada de seis horas, “voando” a bordo daquela motocicleta que só se via nos filmes americanos. Até jovens médicos do Instituto Penido Burnier dividiam trabalhar em ritmo de aventura com o sacerdócio de uma das mais conceituadas clínicas oftalmológicas do mundo. As duas atividades davam um prestígio inigualável para eles e seus familiares.

O desenho da águia, tirado do guidão e do tanque da moto, virou símbolo da Polícia Rodoviária, a ornar o quepe e a timbrar seus papéis.

Quando você passar pelo km 99 da Via Anhangüera, saiba que muito mais do que um posto de policiamento, aquele era um centro de guardiães da vida, da cidadania e do respeito a todos. A lei sempre impôs reduzir a velocidade diante daqueles postos, mas quem conhecia os guardas reduzia a marcha para saudá-los. Eram ídolos das crianças, que viajavam no banco de trás, todos se sentindo garbosos companheiros, em sonho, dos soldados, ora atrás de bandidos, ora socorrendo feridos, muitas vezes ensinando o melhor caminho para seus pais.

Incorruptíveis, conquistaram o honrado (mas exagerado) mérito de “única corporação fardada honesta do Brasil”.

O soldado Alita, hoje sargento reformado, era o mais popular, entre os colegas, os superiores, os motoristas de carro ou caminhoneiros e principalmente dos repórteres e das crianças. Sempre que voltava das férias, era notícia no nosso “Correio”. Ontem, conversei com ele sobre o destino daquelas “águias”: Peixoto, Zoroastro, Canhão, Fancato, Eliel, Berinjela, Meloni, Juarez, Botelho, Dedão, Elisiário, A. Cunha, Vergílio Sarti… Soube que muitos descansam em casa e outros descansam em paz, mas todos ouvindo com o coração o hino que os moleques daquele tempo jamais se esquecem: “De noite ou de dia / Firme no volante / Vai pela rodovia / O bravo vigilante…. / Guardando toda estrada / Forte e confiante / É o nosso camarada / Bravo vigilante / O seu olhar amigo / É um farol / E avisa do perigo…”

Pregado no poste: “Puts! Como era bom viver em Campinas!”

 

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