O Progresso das meninas

O memorialista campineiro João Marcos Fantinatti nem sabe onde achou este precioso documento: depoimento da magistral Octávia Maia sobre seu pai, Orosimbo, escrito a 13 de dezembro de 1961, quando era nossa bibliotecária no Colégio Culto à Ciência:

“Vida pacata de cidadezinha servida por ‘bondinhos de burros’, caleças, tílburis.

Algumas escolas e colégios públicos. Nenhum internato para meninas… Quem desejasse aprimorar a educação das filhas deveria interná-las em Sion ou Itu.

Pais amorosos, à frente dos quais estava o meu, não se podiam conformar com a separação. Naquele tempo, Itu e São Paulo ficavam tão longe! Mas urgia dar-nos melhor instrução. Sempre me lembro de ouvir meu Pai: ‘O saber não ocupa lugar; e ninguém pode prever o futuro. A fortuna gira como cata-vento. Enriquece a uns e ao mesmo tempo arruina a outros. E quem sofrer este baque deve achar-se apta para a luta!’…

Mas como se separar das filhas? Dias preocupados. Noites de insônia. Afinal, a solução única: fundar aqui um internato e externato modelo para meninas.

Homem dinâmico, vontade férrea, saiu à procura de amigos que se debatiam com igual problema: Luiz de Campos Sales, Artur Leite de Barros, Cel. Antônio Álvaro de Souza Camargo e seu irmão Joaquim. Aplaudiram a idéia. Acertaram os pontos e aprovaram inteiramente o que idealizara meu pai.

Este alugou no Guanabara a chácara do Sr. José Aranha – hoje Colégio Imaculada – para nela instalar o futuro Colégio Progresso Campineiro. Isto, mais ou menos em agosto.

Deram-lhe ótimas referências sobre uma educadora austríaca: Ana van Malezenska. Foi buscá-la em São Paulo, para ser diretora. A compra de todos os móveis e materiais escolares foi feita num abrir e fechar d’olhos.

E no dia 8 de Outubro de 1900, já estava o Colégio em condições de funcionar. Mas… porque tanta pressa? Tudo sonhado e realizado em apenas dois meses.

Porque Odilla, a mais velha das 3 meninas (nós éramos e sempre fomos suas 3 meninas). Odilla completaria no dia 9 os seus 10 anos. O presente prometido pelo aniversario era o internato! Feliz tempo… saudoso tempo. Tempo em que não se ouvia a palavra ‘complexo’ nem existia a ‘personalidade infantil’. Realmente, Odilla foi a primeira matriculada, recebendo o nº 1. E o nº 2 coube a Sílvia Camargo, pupila do Sr. Joaquim Álvaro, o tio Quim de Campinas.

E vieram outras. Vieram muitas. Elas vieram de outras cidades e de outros Estados. E o prestígio do Colégio Progresso se firmou. Grande colégio! E quando chegavam os domingos de saídas, era com pesar que ele via algumas meninas, cujos pais moravam muito longe, ficarem no colégio. E passou a trazê-las para nossa casa. Eram, como que outras filhas, novas e queridas irmãs, que ele nos dava. E que preciosas amizades nós conservamos, carinhosamente, até hoje. Duas delas, ainda aqui presentes: Zita (Sra. Dr. Cristiano S. das Neves) e Bisi (Sra. Oliveira de Morais). Amigas das más e das boas horas. Amigas-irmãs e para sempre…”

Pregado no poste: “Que cidade! Quando o pai podia, construia uma escola para as filhas!”

 

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