O nó da gravata

Era fácil achar a alfaiataria do Lazinho. Só entrar na casa Otranto, ali na Barão de Jaguara, perto da igreja do Carmo, e perguntar ao seo João ou ao seo Sérgio Otranto, filhos do lendário Hamleto Otranto. Em meio a uma infinidade máquinas de escrever e de calcular, eles conheciam tudo naquele pedaço mágico de Campinas. “Está vendo aquele prédio ali, em cima do banco Ítalo-Belga? É o edifício Regina, ao lado do café. Vá de escada; é mais fácil. Quando a batuta do maestro Carlos Gomes aparecer na janelinha da escadaria, é naquele andar…”. Fácil, fácil. Lazinho e o Vitor, que fazia as calças, estavam sempre às ordens. Difícil era agüentar as brincadeiras dos dois: na hora de medir o “cavalo” das calças, eles davam um peteleco no devido lugar, que fazia o jovem freguês dobrar de dor. Aaai!

Não me lembro se em cima ou embaixo, ficava o Jair Barbuti, ourives de dez entre dez casais que começavam a namorar. Ele fazia alianças prateadas, como anéis de compromisso. No tempo da Jovem Guarda, cansou de montar anéis de “brucutu” para a meninada que surrupiava aqueles chuveirinhos que esguichavam água no pára-brisa dos fuscas. Novidade.

Campinas teve, e tem ainda, grandes alfaiates, os “reis da tesoura”, como Pashcoal Palermo, outro mestre do traje sob medida, ali na César Bierrenbach. Com ele, a roupa fica sempre melhor do que a encomenda. Também famoso pelo capricho, o Geraldo, ali na Rua José de Alencar. Ainda não fiz bodas de prata, mas os ternos do casamento que ele me fez vão durar, pelo menos, até as bodas de ouro. Se é que nós chegaremos lá.

A Galeria Trabulsi, também na Barão de Jaguara, era o reduto do Salvador Asta. Mais? A Regente Feijó, que homenageia um grande padre do Primeiro e do Segundo Império, abrigava boa parte dos alfaiates. Não sei o motivo, embora, tenho certeza, nenhum deles fizesse batinas. Será que ficava nessa mesma rua, o Lavorini, especialista em fardas para oficias do Exército? Ainda na Regente, havia os ateliês do Carlos Fiolo e do Moacyr Zullo. E do Jacobucci, um craque do estilo, com aluguel de trajes a rigor para formandos e “noivandos”.

A gaúcha Lojas Renner se orgulhava de fazer “a boa roupa, ponto por ponto”. Mas quem dava conta desses pontos era o Santão, mestre de alfaiataria, que ficava ali na Conceição com Glicério, quase de frente para o Alecrim de Campinas, no Largo da Catedral. Uma vez, Santão e os amigos realizaram uma façanha: de barco, saindo do Regatas, em Sousas, pegaram o Rio Atibaia, o Piracicaba, o Tietê, o Paranazão e foram parar em Buenos Aires, quase o mesmo percurso da Hidrovia Tietê-Paraná.

Na General Osório, em frente do Armorial, ao lado da loja “5”, que vendia lâmpadas, era o domínio da Bibiano Modas, do Lázaro Bibiano da Silva. Vizinho do restaurante mais elegante de Campinas, ele era especialista em casacos de pele e em aplicar peles nos vestidos chiques das madames. Foi ele, também, quem fez o terno de casamento do Renato Otranto, repórter aqui do Correio, grande cabeça da imprensa campineira, filho do seo João e neto do Hamleto.

Lázaro Bibiano era tão requintado, que nem deixou o Renato comprar a gravata. “Deixa, que eu mesmo confecciono a gravata!”. Expliquei ao Renato tanto zelo do Lázaro: “Claro! Onde você ia achar uma gravata que…”. Não sei porque, ele bateu o telefone antes de eu terminar a explicação…

Pregado no poste: “Beto Zini, a Ponte não empresta o time?”

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