O não posso de cada dia

A vida não deixou essa jovem mãe de 27 anos ser mãe. À frente de oito filhos nessa pouca idade só no tempo das deusas – aquelas míticas protagonistas de histórias dramáticas e seus fins trágicos. Assim, Angélica deixou perplexos os policiais, ao entrar na delegacia de Cosmópolis com a fileira puxada pelas mãos e anunciar a intenção de doar quatro deles – “como o fez”, arrematou a repórter Angela Kuhlmann, mais perplexa em seu belo relato do que os policiais.

Da campineira Angela, a memória voltou dois anos, para a recifense Renata Freitas, que retratou na Revista “Metrópole” raras famílias que conseguem manter prole maior que a de Angélica, sem cogitar de dar parte dela para a polícia.

Angélica cata papelão pelo pão de cada dia. O que mais precisa é de ajuda, solidariedade, carinho – nem sabe o que é isso, como dar aos filhos? Mas o que ouve é o “não posso de cada dia”. Se alguém dissesse a ela “eu posso”, em vez de desabafar para a Ângela, ela contaria para a Renata como é cuidar de muitos filhos:

“Desejo que quando o caçula sair de casa, nós já tenhamos netos.”

“Pensávamos em ter cinco filhos, mas as coisas foram acontecendo e quando vimos, já tínhamos dez.”

“Hoje, temos dez, sete adotivos. Amanhã, nunca se sabe.”

“Agora vamos ficar com três casais e um menino. Acho que teremos de completar mais um casal.”

“Nós queríamos ter muitos filhos, mas não havia número definido. Achávamos que seriam dois ou três, porque hoje a condição financeira é muito importante.”

“Tínhamos vontade de ter dez filhos. Quando estávamos com três, adotamos a Cínthia, um presente. Nos apaixonamos por ela. Foi uma bênção para todos nós.”

“A casa tem mais felicidade, agito, aconchego, calor humano. Dá mais alegria que trabalho.”

“O gasto é considerável, mas a alegria compensa tudo. Eles completam a nossa vida e nos ensinam a ser menos egoístas.”

“Quando o casal tem muitos filhos, passa a relevar coisas que, no fundo, não são importantes.”

“A gente sempre tem companhia.”

“Tem aniversário o ano inteiro, mas cada um tem sua festa, sempre muito comemorada.”

“Quando um precisa falar em particular, a gente vai para o meu quarto e conversa com tranqüilidade.”

“Quando a família chega a uma reunião é uma alegria; a casa fica logo cheia. Na hora de ir embora, a festa acaba, porque são 12 indo embora de uma vez.”

“Se um está fora, já fico perdida. Sinto que falta alguma coisa.”

“É uma verdadeira invasão.”

Pregado no poste: “Uns não usam blacktie, outros não usam camisinha”

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