O namorado de Campinas

Conheci seo Carpino, inspetor de alunos do colégio Culto à Ciência. Conheci o Carpino, pontepretano, também aluno daquele templo, goleiro favorito do professor Stucchi, depois guardião do time juvenil da Macaca.

Agora, tenho o prazer de ser apresentado a outro Carpino. Eis que, mui gentis, dona Leontina e dona Iolanda Carpino me dão de presente uma preciosidade: um livro. Quer presente de maior valor? Chama-se “Potestade” essa obra de Orlando Carpino, que ele jamais viu publicada – uma coleção de poemas ofertados à sua maior paixão na curta vida de 25 anos, que acabou em 1935: a cidade de Campinas.

Por ela, Orlando, às vezes de pseudônimo Ruy Blaz, viveu a vida, paixão, presídio e morte. Era assim que ele se dirigia à sua amada:

“Eu serei teu eterno namorado; / namorarás, também, eternamente, /  este doido amante, apaixonado. / E o mundo todo ficará pasmado, / quando nos vir assim, alegremente, / a sorrir e a cantar de braços dados…

“É tão grande a beleza que te encerra, / Que o próprio Cristo quando veio à terra / Deve, por força, ter nascido aqui.”

“Como se não soubesse terra amada, / Que para te pintar, oh! abençoada, / Só um no mundo existe e esse – é Deus!”

“Só a minha terra tem a fulgural beleza. / E só a Ela contemplou a Deusa Natureza, / Pelo abrigo que deu às aves tagarelas. / E a natureza grata, em vendo essa bondade, / Quis dar ao povo meu à Terra Majestade / Andorinhas sutis às nossas tardes belas.”

“Mas não sabem, talvez, que essa água amiga, / Que cai do Céu – tristíssima cantiga, — / São lágrimas dos Santos companheiros, / Que choram comovidos e tristonhos / De não terem na vida, por seus sonhos, / O orgulho de nascerem Campineiros.”

Desafiando Gonçalves Dias: “Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o sabiá, / Minha terra é de andorinhas / E, como estas, não tens lá. / Minha terra tem palmeiras, / Onde chilreia a andorinha. / A canção que aqui se ouve / Na tua terra não se aninha”…

“Por que é que Cristo quando fez o mundo, / Sabendo o sólio meu, rico e fecundo, / Criou o Céu, rival da minha terra?…”

“Dizem que o Cristo há de tornar à terra, / A rever o seu mundo caminhando. / O progresso ou atraso que ela encerra / — Tudo, Ele fitará com olhar brando. / Dizem que ele virá, surgindo à serra / Que o separa do mundo e, ali fitando / Esse grande covil que nos aterra, / Há de a bondade sua ir espalhando. / Mas Ele já pensou, isso eu garanto, / De quando aqui tornar com seu encanto, / Para espalhar o incenso verdadeiro, / Em trazer no seu cérebro encantado, / O desejo genial, tão bem pensado, / De naturalizar-se Campineiro.”

Potestade”, organizado por Gleides Giorgio Affonso e editado pela Átomo, acabou  de sair, contando um pouco dessa grande alma de poeta e jornalista, que mais amou Campinas do que Tom e Vinícius, o Rio de Janeiro.

Pregado no poste: “Campinas –- muitas lembranças, nenhuma esperança. Até quando?”

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