O mercado da sobrevivência

(O PT malufou, claro, e os malufistas indignados lembram-se da mais famosa frase do Maluf: “Estupra, mas não Marta!”)

Imagine que nestas Campinas as vitrinas das lojas varavam noites e madrugadas acesas até o sol raiar. E ninguém, niguém mesmo, ousava sujar, riscar ou quebrar um vidro sequer — nem para roubar artigo algum exposto à admiração pública daqueles pequenos palcos iluminados do consumo num tempo sem consumismo. Os claçados da Clark, Picolotto ou Baby; os brinquedos das Lojas Americanas e da Casa Bongo; a última moda femina na Anauate, e masculina, na Garbo, Ducal, A Exposição ou Di Láscio; livros, material escolar e de escritório da Nossa Casa; as confecções finas da Etam e da Firenze; geladeiras, televisores e lavadeiras na Assunção…

Assim como a violência já exige requintes e especializações mil de cirurgiões plásticos e ortopedistas, ela também muda os hábitos de consumo. O Brasil é um dos campeões de plásticas faciais, mais pela violência que deforma suas vítimas do que pela vaidade de seu povo.

A violência mudou a cara do comércio, confirma pesquisa da Associação Comercial do Rio de Janeiro: “As pessoas voltam para casa mais cedo, evitam fazer compras depois de um certo horário e compram menos na rua. O consumidor se retrai. Depois de cada evento violento noticiado na cidade, como a guerra entre Rocinha e Vidigal, apuramos uma redução de 25% no movimento nos shoppings depois das 21h. Isso significa perda de faturamento, especialmente para os restaurantes e as lanchonetes. Os setores mais prejudicados são os restaurantes, hotéis e as joalherias. Não fossem esses acontecimentos violentos o comércio na cidade teria expansão 20% ainda maior este ano, em relação a 2003. Depois de certa hora, não se vê quase ninguém na rua. O povo evita até ir ao cinema e ao teatro à noite.”

Lá no Rio de Janeiro, a violência preocupa (e intimida) mais as pessoas do que o desemprego e a inflação. A mesma pesquisa mostra que a população está descrente das autoridades e não acredita nas providências  para controlar inflação e baixar o desemprego. A sensação é de insegurança.

Interessante esse estudo: ele inclui, também, um ranking de intenções de compra, no qual peças de vestuário (27,1%) figuram como o maior desejo do carioca. Já os eletrodomésticos (13,7%) vêm em segundo lugar, seguidos por livros (11,5%), uma surpresa para os pesquisadores.

Essa súbita ‘aparição’ do livro na preferência de um país de analfabetizados pelas autoridades, que fingem cuidar da Educação e Cultura, só poderia surpreender. A busca por livros não é fruto do estímulo, infelizmente, mas do medo. Ficar em casa é um pouco mais seguro e nem só de TV vive o homem – e a mulher –, mas há algo mais a fazer além de filhos. O islandês, refugiado em casa por causa do frio, é o povo que mais lê. O brasileiro, cada vez mais enjaulado, por causa da violência impune, vai para o mesmo caminho. E não demora, esse governinho (igual aos outros) soltará anúncios mentirosos, orgulhando-se de que o povo está lendo mais. E haverá trouxas que acreditarão, como aqueles que crêem que a inflação de setembro foi de 0,33%.

Livros são excelente arma contra a violência. Ou você já viu bandido assaltar biblioteca?

Pregado no poste: “Campinas rimava com vitrinas, agora rima com rapinas”

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