O “Lar Marial” da Barão de Itapura

Nestes tempos em que estabelecimentos de ensino são fachadas de estabelecimentos comerciais e quando a educação deixa de ser missão para virar negócio, uma escola completar meio século de vida sem perder a dignidade nem desaparecer na lembrança é um milagre. Milagre, talvez, da Imaculada Conceição – celebrada num templo de conhecimento a ela dedicado como marca sem mácula na Avenida Barão de Itapura. Sempre lá, resistindo ao tempo da degradação, que faz no Brasil, e ao vento da mediocridade, que fustiga a Nação.

Seu berço tem nome bonito, sonoro e solene: “Lar Universitário Marial”, constituído em 1948 pelas religiosas “Filhas de Jesus”, que chegaram a Campinas em 1947. Era o ano de fundação da Puccamp, e nada melhor do que um “Lar Marial” para abrigar jovens calouras vindas de outras plagas  a esta cidade pequena, mas orgulhosa da grandeza de sua gente, ainda que provinciana. O começo foi em 1952, com 125 alunas distribuídas pela pré-escola mais a primeira e a segunda série do Primeiro Grau – aquele primeiro grau que nas escolas da Prefeitura tinham o nome de “Grupo Escolar”. Hoje, da mesma pré-escola até a porta da universidade são 1.800 alunas que, há muito, se misturam aos alunos.

Quem viveu as Campinas dos anos 50 se vai lembrar delas, quando eram só elas a garantir o alarido alegre dos intervalos e a algazarra da saída, observadas, cobiçadas, flertadas e paqueradas pelos colegas do “Culto à Ciência”, e pelos passageiros do Bonde 3 a caminho do Guanabara ou na volta ao Centro. E passava o “Bondão Verde” de Souzas. Naqueles tempos e na idade delas, a Barão de Itapura era imensa, já perigosa, a maior avenida da cidade. Exibia na paisagem as primeiras jamantas, da Leco, e os ônibus articulados, da 3 M, fazendo pequenas as jardineiras que levavam trabalhadores à Rhodia e moradores ao então distrito de Paulínia e a Barão Geraldo.

Se quem passava pela porta daquela escola azul jamais se esqueceu dela, imagine quem saiu de lá há menos de dez anos, como a Débora Rossi, hoje quase médica, que estuda em Taubaté: “Além dos colegas, os professores – o Marquinhos, de Educação Física; a Lígia, de Ciências, e o Beto, de Física, ensinando e cantando com a gente ‘Sonífera ilha’, dos Titãs, no ‘fundão’ da classe: ‘Descansa meus olhos; sossega minha boca; me enche de luz…’. Ela parou para não chorar.

Amanhã, neste espaço, a lembrança de quem vive lá longe, no Texas, entre caubóis, poços de petróleo, e tem os Bush como vizinhos. E nem assim se esquece daquele templo.

Pregado no poste: “Você ainda se lembra da sua escola?”

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