O ladrão de galinha voltou?

Pensei que tivessem acabado, extintos pela guerra do tráfico, políticos corruptos, bandidos de colarinho branco ou de botinas amarelas. Hoje, que saudade deles! Velhos conhecidos dos tranca-ruas — inspetores de quarteirão — os ladrões de galinha eram também conhecidos de todo mundo em todos os bairros. Lembra? Toninho Gato, Satã, Sete Dedos… Discípulos do legendário Gino Amleto Meneghetti, Robin Hood mezzo italiano mezzo paulistano, ídolo dos que fizeram a Semana de Arte Moderna. Roubava dos ricos para dar aos pobres, bem diferente daquele que “rouba, mas faz”. Todos devotos de São Dimas, o bom ladrão, que no mesmo dia morreu na cruz ao lado de Cristo e com ele foi ao Paraíso.

Como (ainda) existe até quem caia no conto do vigário (a vítima também deveria ir para a cadeia), um ladrão de galinha de vez em quando nunca fez mal a ninguém. Mas veja se não é “digna de nota”.

Aconteceu na tarde de domingo passado, num bairro de gente humilde aqui de Ribeirão Preto. Sabe aquelas festinhas barulhentas, deliciosas, de aniversário de criança, com bolo, brigadeiro e, claro, tubaína? (Se não tiver tubaína bem gelada, eu não vou. Tubaína é a única coisa doce que deve entristecer o diabético – o resto, tudo passa, até bolo de chocolate com coco.).

Pois então. Como a casa é pequena e a cozinha menor ainda, a mãe da menina (fez três anos naquela tarde, a coitadinha!) decidiu encomendar o bolo na confeitaria. Bolo daqueles grandões, cheio de recheio, para enfiar o dedo na cobertura e lamber. Bolo para mais de vinte crianças encher a pança. Não tem importância que depois da aniversariante, a mãe e a madrinha acendam as velinhas outra vez e mandem todas as crianças soprar de novo. Meu cunhado, o Zé Antônio, diz que não come bolo em festa de criança por causa disso: “Tá louco! Sopro de vinte crianças naquilo que eu vou comer?! Nunca!!”

No meio da tarde, ela mandou o maridão buscar o bolo, que estava na hora de soprar as três velinhas cor-de-rosa e cantar o “parabenza”. O maridão saiu e veio com o bolo no banco da frente do Chevete sete-um, pára-choque amarrado com arame e uma cor na lataria de que ninguém se lembra mais. Abriu a porta, pegou o bolo, mas foi cercado por três malandros em duas mobiletes: “O bolo! Nóis qué o bolo! Só o bolo! Trocar pelo carro? Pra que serve isso? Ocê nem arcança nóis cuisso!” Levaram. Sorte que a confeitaria tinha outro.

Pregado no poste: “Dona Izalene, farinha nos olhos dos outros é refresco?”

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