O homem que sabe ensinar

De cada dez estudantes, onze não gostam de Matemática. Mas nas lembranças do meu tempo de escola, de cada dez estudantes, onze gostavam do professor de Matemática João Batista Amade. Poderia encerrar esta nossa conversa por aqui, contando que ele foi paraninfo de “apenas” 23 turmas de formandos do antigo Colégio Ateneu Paulista, do Cesário Motta e do Diocesano. Nenhum cidadão campineiro foi tantas vezes escolhido para uma função como esse mestre.

Era admirado também pelos colegas, que o colocaram à frente do Sindicato dos Professores. Eleito sem ser candidato; preferido, mesmo lecionando o terror das matérias; o mais querido dos alunos, ainda que não desse aulas sobre temas férteis. Nenhum de seus ex-alunos é capaz de esquecê-lo. Entrou na vida de milhares de campineiros e tornou-se um eterno companheiro.

Ele sabia seduzir a classe, navegando pela aridez dos números – uma proeza.  Cabelos grisalhos, alinhados, corte impecável, sempre de terno claro e gravata, paciência dos sábios, sabedoria dos humildes, semeador de conhecimentos, construtor anônimo do caráter dos jovens, como só o professor sabe.

Contemporâneo de grandes figuras dessa arte de saber ensinar certo o que é exato, mestre Amade era referência até de seus pares, dos quais também não me esqueço: Lívio Thomás Pereira, Amaury e Auzenda Fratini, Lenine Righeto, Madelena Vidotti, Mirtes Padilha. Tive poucos professores de Matemática. Assim que pude, saltei o curso Científico e mergulhei no Clássico. Tudo por causa dela.

Regra de três é triângulo amoroso ou tripla menstruação? O ângulo reto é aquele que ferve a 90 graus? Cateto não é uma raça de porco? A Matemática é virgem porque o trigonometria? O teorema é de Pitágoras ou de Fellini? A ordem dos fatores não altera o produto ou a ordem dos tratores não altera o viaduto? As igrejas caça-níqueis cobram dízimo ou dízima? Tanto faz, desde que a contribuição seja periódica. Nunca entendi porque dois mais dois são quatro. Para um chato, dois e dois podem dar 22 e um comunista vai morrer tentando fazer dois e dois darem um para cada um. Morrerá louco, porque nunca vai conseguir. Dizia que a Matemática “tem parte com o diabo”, mas felizmente os professores “têm parte com Deus”.

Tivesse sido aluno também do professor Amade, essa confusão seria menor. Mas privei de sua amizade e de seu convívio. Um orgulho. Há tempo não o vejo, mas é como a lembrança de um belo filme vê-lo passar pela minha rua, de braços com sua Lucilla (um beijo emocionado, querida!), seguidos do João, da Betinha, da Fátima, do José Roberto e da Regina — filhos de um homem de bem, um homem do bem.

Estava no grupo que nos deu a Fonte São Paulo, ainda no tempo do “Clube dos 300”, lembra? Foi inspetor seccional do Ensino Técnico de Comércio e inspetor do Ministério da Educação. Nesse cargo, alguém mais inspetor do que professor fecharia escolas irregulares, deixando os alunos na rua. Mestre Amade preferia ensinar os diretores a recuperar a escola, mostrando que ela é, sempre acima de tudo, um estabelecimento de ensino, não um estabelecimento comercial. Escola é altar, jamais um balcão. Preferia dar uma aula de dignidade aos donos, em vez de fechar a escola.

Bom dia, professor. Sua vida é uma lição. Obrigado.

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