O filho da d. Josefa

Minha rua, a Professor Luís Rosa, tinha de abrigar quatro grandes professores: o filho da dona Chiquinha e do seo Euclides, o Roberto Amaral Lapa, o mestre Pedro Biassolo, ambos historiadores, e um matemático, o seo Amade. Também moravam ali dois grandes esportistas, Manuel Henriques, marido da Tia Nina, e Franco Bergonzoni, filho da dona Olga, além de um repórter de campo, o dentista Aluísio Douglas Ferrari.

E morou na minha rua um dos maiores artistas plásticos do Brasil, humilde, discreto, elegante, educado. Era professor antes de ser artista. Sempre ensinou. Viveu na última casa da minha rua esse filho da dona Josefa e do seo Firmino, o Bernardo Caro, marido da Teresinha, moça bonita – nunca vi o Bernardo sem ela ao seu lado.

Libertário: achei este depoimento dele, ainda jovenzinho:

“…na parede de um dos bares, tinham bastantes papéis grudados com charges políticas. E eu falei: ‘Puxa vida, eu quero fazer uma! Então, eu corri para casa, e fiz um desenho do Hitler em cima de uma carroça, puxada pelo Mussolini, e atrás estava o Hiroito, os três que formavam o Eixo. E lá fui eu e colei minha charge junto com aquelas outras, mas voltei correndo para casa com medo de que algum quinta-coluna. quisesse me matar… E meu desenho ficou lá, e nos outros dias eu ia lá perto olhar, com certa satisfação. Eu gostaria de ter esse desenho comigo, mas não o tenho.”

Libertário, sim. Achei ainda este manifesto de um ex-aluno, o pintor gaúcho Flávio Scholles:

“No tempo em que cursei a Faculdade de Artes, três professores marcaram mágica e definitivamente meu aprendizado: Nayá Corrêa e Cristina Balbão, na UFRGS, e Bernardo Caro, na Puccamp. Bernardo era o professor de pintura, conceituado e premiado. O que mais lhe marcava eram os óculos e as costeletas, que iam até embaixo da ponta de suas orelhas. Na primeira aula, meus colegas lhe exibiram o desenho que eu fizera dele (a aula era de retratar deformando). Ele pegou, deu nota e dobrou. Para mim foi meu melhor retrato até hoje. Depois, só me deu nota dez. ‘Artista ganha dez’, dizia Bernardo. Convidou-me para fazer a exposição de inauguração do convívio de arte dele, com meus cartoons. A direção da Faculdade de Artes da Puccamp suspendeu as aulas. A este professor devo a estruturação do meu trabalho. A ousadia. A liberdade de criar.”

Há dez anos, Bernardo é nome de rua, em Villanueva del Trabuco, na Espanha, que ganhou dele o monumento Mi Pueblo. Agora, não duvide se Deus pedir para posar para ele.

Pregado no poste: “Quem matou Taís? Quero saber quem mandou matar seo Toninho!”

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