O começo da elegância

A Rua Hércules Florence tinha um bom trecho de chão batido que ligava o Colégio “Culto à Ciência” à Rua Barão Geraldo de Resende. O asfalto, que vinha da Saldanha Marinho, terminava no encontro da Delfino Cintra com Antônio Lobo. Depois, poeira ou lama. Tudo dependia de São Pedro. Mas era justamente aquele pedaço de terra que encurtava o caminho da escola ao ponto do bonde 3, que levava os alunos que moravam lá pras bandas do Guanabara. O desvio pela Delfino Cintra era muito longo até chegar ao ponto da esquina com a José Paulino (Antes de continuar, o “Culto à Ciência” ainda está de pé?). Tomara!

Como eu morava perto do colégio, às vezes seguia pela Delfino, às vezes pela terra. Era na virada da Antônio Lobo que a maioria se dispersava — ali, no bar do “Espanhol”. Começou a se lembrar, né? Pois eu me lembro mais de algumas das “vítimas” daquele trecho sem calçamento: Benê Sampaio, Zé Francisco Graziano (tudo bem, Pio?), Cláudio, Cesar e Carmem Rita Ludovici, Heloisa e Elizabeth Paes Portes, Hércules Leite (o xará da rua…), Pedro Guilherme de Castro Tolosa de Souza Campos (tinha o nome mais cumprido do que o trajeto…), Walter João dos Santos, Fernando Bigurrilho, Carlos Alberto Nascimento (Ocrinho), João di Túlio, Plínio e Milton Valente. Tanta gente boa, que não vi mais, mas não me esqueço.

Era divertido passar por ali. Sempre havia uma surpresa. Às vezes, quem vinha muito cedo a caminho das aulas, deparava com casais que saíam correndo, envergonhados. Os dois lados da Hércules Florence, naquele trecho, eram terrenos baldios e o mato, alto suficiente para esconder dois corpos deitados, por exemplo. Ainda não haviam inventado os motéis… O matagal só era carpido quando algum parque de diversões ou um circo se aboletava naqueles espaços enormes. Esse badalado Circo Tihany, agora de volta ao Brasil, foi armado ali mais de uma vez. O Garcia, o Sarrasani, o Búfalo Bill, o Scali e o Romano, também. (Quem levasse três gatos para os leões ganhava um ingresso na geral.).

O único inconveniente daquele caminho era conservar os sapatos limpos. Impossível. Aqueles pares pretos de Vulcabrás ou Passo Doble, que completavam o uniforme do colégio, nunca chegavam pretos à escola e “denunciavam” os alunos passageiros do bonde 3.

Havia uma garota, uma das mais paqueradas do “Culto à Ciência” naquele tempo, que despertava paixões em todas as classes. Era a musa de onze entre dez rapazes — olhar, rosto e sorriso da mais bela índia guaicuru. Felizmente, naquele tempo, o doutor Telêmaco Paioli Melges e a dona Celina Duarte Martinho já haviam liberado todos os pátios, para que meninos e meninas se encontrassem no intervalo das aulas. E foi num desses intervalos que tudo mudou. Aquela bela indiazinha cobiçada, conversando sobre elegância com um grupo de colegas, definiu: “Elegância, pra mim, começa nos calçados. Rapaz com sapato sujo, eu nem olho o resto”. Depois daquele dia, não se viu mais marmanjo algum chegando ao colégio por aquele pedaço de terra da Rua Hércules Florence.

Pregado no poste: “Você sabia disso, Tânia Antunes Carneiro?…”

 

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