O cio no domingo

Não se espante. O título desta crônica não está errado.  Não estou falando sobre o ócio nos domingos,  aquele que deixa as pessoas largadas diante da televisão,  jogadas na cama até o dia acabar ou angustiadas pelas perspectivas da segunda-feira, quando a musiquinha do Fantástico anuncia que o dia de não fazer nada terminou — e você constata que,  realmente,  não fez nada do que planejara para este e todos os outros fins de semana,  passados e … futuros.

A história é sobre o cio no domingo; isso mesmo: o cio. E essa história eu conto como a história foi. Aconteceu num lugar longe, muito longe daqui, quase no sertão paulista, mas não faz muito tempo — há uns quinze, vinte anos.

Lá em cima, em pleno Alto Tietê, no espigão que divide a Alta Paulista da Alta Sorocabana, vivia um fazendeiro, de nome Arlindo. Homem dado às coisas da terra, ambientalista de nascença, dos tempos em que essa palavra não existia para definir verdadeiros e interesseiros defensores da natureza. Não era ecólogo nem ecologista, muito menos “ecochato”. Mas em assuntos de qualidade ao meio ambiente dava de tudo X zero. Aprendeu vivendo e viveu para ensinar. “Não mate a cobra; nós é que invadimos o espaço dela”, advertia.

Respeitava o ambiente para viver de bem com ele. Viveu três quartos de século no mato e nunca foi picado por uma serpente. Mas salvou muitas vítimas das peçonhentas. Espantava onças sem dar um tiro. Tempo de manga e de jaboticaba, como este que está chegando, era tempo de pôr a molecada com varas de bambu em volta das árvores para assustar os passarinhos. “Vamos apanhar as frutas, mas deixem um pouco para as aves; se não,  elas vão se embora e não cantam mais aqui”. Sua terra era diferente das outras; tinha vidas que outras não tinham, lá por aquelas bandas: cachorros do mato,  antas,  veados,  jaguatiricas, seriemas, gaviões, pica-paus, joão-de-barro (como é o plural de joão-de-barro, dona Célia ? E o de quero-quero ? Queremos-queremos?), tatus, gralhas, maritacas, araras,  perdizes,  corujas — quantas corujas !

Frutas ?  Todas. Principalmente as que não aparecem nos supermercados da cidade e já desaparecem nos campos. Árvores ? Muitas, que nem os “ecochatos” de hoje conhecem. Estão todas lá. Quando a velha canforeira morreu, diante de tanta tristeza dele,  pensei comigo: “Mais um pouco e vão mandar rezar uma missa de sétimo dia pela morte da coitada.”  Estava inconsolável: “Quando meu pai chegou por aqui, começo do século, ela já estava aí. Deu sombra para os que ergueram a casa, perfumou as noites de luar, curou muita tosse, diminuiu muita dor de pancada e me abrigou em seus galhos, em fugas por traquinagens…”

Foi nessa terra que, certo dia, apareceu uma família de retireiros atrás de serviço. Diziam-se gente boa de lida com o rebanho e esperta no trato com as vacas leiteiras. O menino, seus 17 para 18, ganhou de presente um curso de inseminação artificial, “modernagem” que chegava às fazendas paulistas. Três semanas no laboratório da Lagoa da Serra. Voltou orgulhoso, pronto para mostrar o que aprendera. No primeiro domingo, uma vaca entrou no cio:

— Hei, fulano, a briosa tá no ponto; entrou no cio !

— Ah, mas hoje é dia de domingo e dia de domingo eu não trabalho…

PS: Sr. ministro da Reforma Agrária, quando terminar de assentar todo mundo, não esqueça de baixar uma lei proibindo vacas de entrar no cio aos domingos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *