O berço do palhaço

Assim nascem os artistas, principalmente o palhaço, o mais puro dos atores. Afinal, as crianças gostam é deles. Estão sumidos. Por isso, o mundo e a vida andam mais tristes. O palco e o picadeiro sentem esse vazio, faltam meninos e meninas nas platéias para aplaudir as duplas e os solitários. Arrelia e Pimentinha, Fuzarca e Torresmo, Piolim e Chincharrão, Fredô e Nhá Chica, Bambuzinho, Carequinha… Será que acabou o menino que faz xixi na cama?

Fora das telinhas, eles resistem nos circos, o berçário dessa alegria, cada vez mais raros, mais distantes, mais pobres. E são vistos em outros palcos sagrados, como terapeutas do riso, os “doutores da alegria”, em hospitais, esticando vidas que teimam em acabar antes da hora.

Semana passada, me contaram a história de uma dupla de palhaços, (um casal, veja só!), nascida aí em Piracicaba: Néia e Feio. Será que é isso? Estão há treze anos debaixo das lonas do Brasil cumprindo uma das missões mais sublimes do homem: fazer criança sorrir.

E foi assim que eles começaram. Pobres, famintos, mas com fé na vida. Vinham de um ensaio, nada para comer na casa dela. Nem na dele. Sem dinheiro. As migalhas ganhas aqui e ali viravam fantasia para enfeitar a alma e exibir a bela arte de fazer criança feliz. No caminho… uma festa infantil no quintal de uma casa. Entraram.

“Quem faz aniversário aqui?”. Então, justificaram a presença: “Nós somos o presente de alguém que gosta muito de você!”. Saco vazio não pára em pé. Néia e Feio mataram a fome que os ameaçava de morte com os doces, salgadinhos, o bolo e refrigerantes. Mal sabiam os pais da situação deles. Mas eles eram o “presente de alguém que gosta muito de vocês”. Deram um show, passaram a tarde que ficou inesquecível para a garotada. No fim, correram o chapéu, claro, para ganhar algum e espantar a fome, pelo menos a do dia seguinte. Ali veio o convite para uma festa, depois para outra, outra…

Palmas, que eles merecem. Além de você e dos professores, os palhaços serão sempre os que gostam muito dos seus filhos.

Pregado no poste: “Burocrata tem currículo ou burrículo?”

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