O anjo pedreiro

“Caro amigo,

Qual não foi minha surpresa ontem à noite, quando estava no Bar do Chico, saboreando a companhia do Trinca, Cheda, papai, tio Roberto e de outros assíduos freqüentadores, (para não dizer diários), quando ouço uma melodia maravilhosa, tocada com a independência de quem toca apenas por prazer… Era o nosso ‘Anjo da Noite’, nas suas andanças atrás de sua platéia fiel. Tocou duas músicas, que me pareceram celestiais, imagine numa quarta-feira, um dia qualquer, você ouvi-lo? Era ele, e como não poderia deixar de ser, aplaudido como sempre por todos, nos prédios ao redor.  O Trinca e meu tio foram imediatamente falar com ele, e o trouxeram com uma Malzebier (ele toma Malzebier porque — ele quem diz — não tem álcool).

Fomos apresentados, no que ele ficou muito emocionado. Mal sabia que eu estava mais emocionada do que ele. Que alma! O anjo é pedreiro mesmo, por necessidade, mas trompetista, por amor. Seu nome é Vicente e seu repertório, dos anos 50 e 60.  Puxou uma gaita e tocou mexicanas, argentinas boleros, e clássicos de filmes antigos, numa simplicidade que nos deixou atônitos.

Até nos contou um episódio, típico dessas Campinas de agora, acontecido com ele:

‘Peguei minha bicicleta, coloquei o trompete na caixinha da garupa e segui para o… (um centro de compras desses por aí), pois eu moro ali no Santa Genebra. Fui para a passarela central, acima da praça de alimentação, e comecei a tocar. O povo começou a aglomerar e a aplaudir… Quando eu já tinha tocado algumas músicas, veio um segurança e tentou me expulsar. O povo protestou e me defendeu, mas aí eu peguei meu trompete, desmontei e fui embora, como se algum mal estivesse fazendo.’. Eu sei que o segurança estava apenas cumprindo ordens; a culpa é de quem dá as ordens, e numa escala maior ainda, a culpa é de quem dá a ordem primeira. Seria o capitalismo ou seria o consumismo?’

Como diz você, Moacyr: ‘Pregado no poste: A culpa não é dos brasileiros, muito menos do Brasil, a culpa é de quem dá as ordens!’

Beijok procê e pra Santa aí de casa.

Maria da Graça de Carvalho (pela mãe) Camarinha (pelo pai) e Saad (pelo Chedão).”

Pois é, cara Maria. Campinas não era assim. Na terra de Carlos Gomes, fosse esta uma cidade bem governada e de um País decente, que tratasse com amor a arte que o povo merece, esses algozes da música estariam condenados a ouvir discursos de Stalin e Hitler para o resto da vida. Desculpe, mas que nojo!

Pregado no poste: “Quem nasce para a cultura inútil nunca chegará à cultura de Campinas”

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