Novos hóspedes – 1

O traficante de drogas é só um covarde e o usuário, seu agente financeiro, para ficarmos numa linguagem mais moderna do que chamarmos o viciado de “patrocinador do crime organizado”. É chique, mas eles não gostam.

A culpa é do governo – sempre. Quer um exemplo? De repente, deu de morrer cortadores de cana, “algo nunca visto antes neste país”. Oficiais da Polícia Militar afirmam o que todos sabem: canaviais são o maior reduto do tráfico e consumo de drogas do interior de São Paulo. É fácil, porque a lavoura esconde e favorece a compra, a venda e o uso.

Cortador de cana tem sempre dinheiro no bolso, principalmente para comprar droga barata. Se apenas 10% deles usarem uma pedra de craque diariamente no Estado, movimentarão R$ 200 mil por dia ou R$ 6 milhões por mês. Quem vai se arriscar a mexer num mercado desses? Por que a lei é tão complacente e não permite curar essa ferida oficial? A quem interessa? Os únicos derrotados nessa guerra são o trabalhador, que está morrendo, e o empregador, que paga pelo que não fez.

Agora, pergunte se o empregador pode, ao contratar um trabalhador, pedir que ele faça exame de sangue para saber se ele é “usuário”. Não pode, “é preconceito”. Pergunte se policiais podem percorrer plantações, para investigar a presença de traficantes fantasiados de cortadores. Não pode, “é humilhante” suspeitar deles (Noutro dia, em Rio Preto, uma mulher vestida de cortadora de cana saltou do ônibus e de seus panos caíram 40 pedras de craque escondidas na roupa. Uso próprio? Cínica.)

Está no campo a quarta geração de bóias-frias (a primeira foi criada pelo canalha Getúlio Vargas; a segunda, pelo governo Jango Goulart; a terceira pintou nos anos 70s e a quarta é essa gente abandonada, transformada em escória pelo Poder Público, sem referência no campo ou na cidade, submissa ao trabalho a qualquer preço, esquálida, desinteressada. Se a segunda tomava garapa para se energizar e a segunda, cachaça ou vinho, esta precisa da droga. “Parecem o Maradona naquela Copa do Mundo”, compara um sindicalista. Em dois anos, estão mortos.)

Agora, pergunte se é feito exame profundo nesse trabalhador, para saber se ele morreu por uso de droga ou porque cortava cana. Não pode: “é preconceito contra quem não pode se defender”. Mas não é preciso nem ser burro para acertar a resposta. (Espantosa a velocidade com que o corpo dessa vítima é enterrado ou mandado de volta ao seu lugar de origem.)

Pregado no poste: “Não é força, é jeito”

 

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