Notícia pra cachorro

Sabe qual é a primeira lição que um estudante de jornalismo aprende quando entra na faculdade? “Se um cachorro morder um homem, não é notícia; mas é notícia, se o homem morder o cachorro.”.

Sabe qual é a primeira lição que um aluno de auto-escola aprende, quando vai tirar carteira de motorista? “Se atropelar alguém, socorra imediatamente, se não, vai preso por omissão de socorro; mas se atropelar um cachorro, fuja imediatamente, se não, será linchado.”.

A primeira lição, a da notícia, aprendi com o mestre Mário Erbolato, jornalista como poucos, chefe da sucursal de Campinas do Estadão e professor do curso de Jornalismo da Puccamp. A outra, a da carteira de motorista, eu ouvia do Clodomiro Paradella Júnior, dono da Auto Escola Alvorada, que ficava (ainda fica?), aí na Avenida Moraes Salles, entre o Viaduto Miguel Cury e a Avenida Francisco Glicério.

A história da mordida no cachorro, que hoje corre como folclore nas faculdades, serve para ilustrar que notícia é tudo aquilo que foge da rotina e tem interesse público. É fácil de entender. Difícil é ensinar ao estudante sensibilidade para distinguir entre o que é de interesse público ou não. A história da auto-escola serve para chamar a atenção para um fenômeno tipicamente brasileiro, para o qual ninguém encontra explicação convincente: a extrema afetividade que une o homem ao cachorro, tido como seu maior amigo, seja vira-lata ou da mais pura raça. Mesmo quem detesta cachorro não fica indiferente ao sofrimento desse animal – único que exprime sinceridade no olhar. Estranho. Já reparou?

Pois bem. Essas duas reações – a canina e a humana – se deram semana passada em Americana e sensibilizaram os jornalistas Márcia Marcon e Bargas Filho, que as publicaram aqui no nosso Correio. O pedreiro Jair Rodrigues da Silva se desentendeu com seu melhor amigo e mordeu-lhe o focinho. A população, enraivecida, tentou linchar Jair, que escapou a tempo, salvo pela briosa Guarda Municipal.

Pregado no poste: “Homem que morde não ladra.”

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