Nossas águias

— Ei, Alita! Onde está a vítima, pô!

— Ocê tá pisano nos ‘miolo’ dela, Betão! Sai daí!

Alita era o soldado mais popular da guarnição da Polícia Rodoviária, estacionada no km 99 da Via Anhanguera. Viviam todos “estacionados”, mesmo, porque as viaturas já não rodavam mais. Elas tinham até apelidos e, por eles, dá para se imaginar em que estado se encontravam: Pobre Elisa, uma “perua” Ford 57; Podrinho, um fusca “véio”, e Deusa, obrigada a estar em toda a parte… O meio mais rápido para os policiais atenderem a uma ocorrência era a carona.

Todos heróis: Alita, Capitão Bernardini, cabo Canhão, tenente Peixoto, sargento Zoroastro, soldado Berinjela. Esse era terrível, “Caxias” como ele só. Numa noite, pegou carona em um “Cometão”, para socorrer vítimas de um acidente em Vinhedo, e “lascou” uma multa no motorista do ônibus, por excesso de velocidade. Em protesto, os colegas de farda puseram o Berinjela no “gelo”. Alita ficou injuriado: “Onde já se viu? O motorista corre para atender a gente e os feridos e ainda leva multa? Vá ser c.d.f. lá longe!”.

A mão do Peixoto era maior do que uma assadeira de pizza gigante. Sabe aquele filé do restaurante do Alemão, em Itu? Pois é. Ele erguia o repórter Antônio Carlos de Júlio pelos colarinhos com um dedo. Numa madrugada, voltando de Uberaba, Godoy e eu paramos para o costumeiro café com aqueles grandes amigos. Encontramos o Peixoto triste, aborrecido, mesmo: “Parei esse Mercedão aí, para ver os documentos, e o motorista me apontou uma arma. Tive de dar um tapinha nele…” “Nossa! Cadê o cara, Peixoto?” “Tá no Irmãos Penteado; errei a mão e o revólver entalou na boca dele!”

Esse Paulo Maluf era secretário dos Transportes daquele Laudo Natel. Dois bajuladores de militares. Os policiais humilhados, vigiando estradas de carona, e uma frota nova estava escondida no pátio do DER. A dupla esperava as eleições para exibi-la na TV. Zoroastro contou o crime. O fotógrafo Toninho Erbolato e eu revelamos toda a sacanagem. O Estadão estampou a farsa na primeira página. Maluf teve de botar a frota nas pistas no mesmo dia. As viaturas desfilaram na frente da sucursal do Estadão, na General Osório, e, no dia seguinte, passaram na sede do jornal, em São Paulo.

Policiais decentes, honestos, honravam a farda e se orgulhavam da fama (justa) de “única corporação fardada honesta do Brasil”. Morriam, mas não aceitavam propina. Quase todos da turma pioneira da Polícia Rodoviária, recrutada com rigor entre universitários, que se incorporaram atraídos pela farda, pelo jaquetão de couro, pelos óculos Ray-Ban e, claro, pelas motos Harley Davidson. Dessa máquina, tiraram a águia que enfeita o guidom e fizeram dela o emblema da corporação. Daqueles tempos, só ficou a águia. A ditadura inventou a PM e a gloriosa Polícia Rodoviária perdeu sua identidade.

Com a PM, o salário achatou. Alita, nas horas de folga, vendia roupa de bebê no… Jardim Itatinga. Uma “peça” o querido Alita. Quando entrava de férias, o De Júlio noticiava aqui no Correio. Sua volta também era notícia. O comandante Bernardini não entendia: “Pô! Eu sou o comandante, faço curso de especialização nos EUA e ninguém fala nada! O Alita entra em férias e sai até retrato dele no jornal. Como pode isso?”

Lembrando dos inúmeros partos feitos a bordo do Podrinho, das dezenas de vidas salvas nos bancos da Pobre Elisa, das vítimas socorridas na Deusa e da garra e da cordialidade daqueles verdadeiros policiais, vamos saudar hoje os 50 anos da Polícia Rodoviária, homenageada nas telas pelo tenente Carlos Miranda, nosso eterno “Vigilante Rodoviário”, torcendo para que ela esteja no caminho de suas origens.

 

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