Nossa alta sociedade

Eram os maiores amantes da cidade. Jamais ouvi de qualquer um deles um gesto, uma expressão, contra Campinas. Também eram os que mais conheciam nossas ruas, praças, avenidas, becos, cantos e antros. Para muitos, eram loucos. Pela distância do tempo, sinto que eram loucos por esta terra, esses grandes conhecedores da alma campineira e dos campineiros. Palmilhavam Campinas inteira, dia e noite, sempre transbordando a alegria de viver aqui e com os que aqui viviam.

Um elenco de astros e estrelas do nosso universo cotidiano: Mané Fala Ó, Gilda, Coronel Receba, Zé Trovão, Dito Colarinho, Fala Rio, Maria Fuzil, Maria Batalhão e Manquinha, Maria Louca, Firma Nêga, Currunhado, Pedro Caramujo, Oscarlina, Falinha, seo Vignatti, De Monte… Eram todos muito importantes para a comunidade, respeitados, queridos, brincalhões, esses nossos tipos populares. Pelo que me contam, ainda resiste o impagável Mané Fala Ó, porque “o show tem de continuar”.

Sempre numa bicicleta preta, o Mané não podia ver menina bonita: “Ôi, menina! Fala ‘Ó’ pra mim?”. Deixava a “magrela” escorada na sarjeta da Treze de Maio e entrava na sorveteria das Lojas Americanas. Era uma festa! Todo mundo queria o Mané na mesa, para se divertir, conversar e mexer com os outros. Ninguém conhecia sua história, sua origem, mas ele sabia, acho que ainda sabe, o nome de todos os campineiros. E ai de quem ousasse mexer na bicicleta parada lá fora: “Deixa a bicicleta do Mané aí”, avisava o guarda civil Sebastião Nascimento. Tão admirado o Mané, por sua simpatia e bom coração, que no curso de admissão ao ginásio, a querida mestra Ana di Túlio recomendava: “Se o tema da redação do exame de Português for descrever algum tipo popular de Campinas, façam sobre o Mané, porque todos o conhecem e todos gostam muito dele.”.

E o Zé Trovão? Dizem que pertenceu a uma família ilustre, aristocrática, cheia de dinheiro. Mas o Zé gostava, mesmo, era de povo. Para reforçar a lenda, mestra Célia Farjallat se lembra de que ele “pirou” de tanto estudar. E acrescenta: “O Zé Trovão escreveu um livro de poemas, com prefácio do professor de Sociologia da Escola Normal Nelson Omegna, diretor de redação do Correio Popular, depois deputado federal.”. Zé desfilava no Carnaval e quem quiser saber como ele era, há um retrato seu na Galeria Barão Velha, misturado a outras lembranças de Campinas, como tijolos remanescentes da igreja do Rosário e do Teatro Municipal. E há pouco, ele “apareceu” numa fotografia famosa, publicada aqui na capa da “Revista do Correio”, entre vários voluntários campineiros que combateram na Revolução de 32, reunidos em torno do monumento ao Carlos Gomes. Porque “Trovão”? Zezé de 32, outra combatente, garante: “Ele ficava bravo quando não respondiam ao seu comprimento e engrossava a voz…”.

“Nunca houve uma mulher como Gilda” anunciava o cartaz do filme que consagrou a atriz Rita Hayworth, lançado em Campinas em 1947. Essa mulher lendária que, dizem, só precisava tirar uma das luvas para parecer que fazia um strip tease completo, inspirou a Gilda de Campinas. Desfilava pela cidade com roupas que lembravam a Gilda de verdade, vaidosa, toda maquiada, com faixas que a “consagravam” também, como “miss” Campinas, Guarani, Brasil, Universo e o que mais existisse. Sempre sorrindo, certa de uma sensualidade que jamais exibiu, pedia todos os homens em casamento. Eles a incentivavam, pediam para ela cantar, e Gilda se via no palco, imitando Maysa: “Meu mundo caiu…”. Talvez morasse na Saldanha Marinho com Hércules Florence: pelo menos, só viajava no Bonde 9, do Botafogo, para chegar à cidade, sem jamais pagar a passagem. Algum gentil “galã” pagava para ela e recebia um convite: “À noite, espero por você na grama da Praça do Trabalhador…”. E saltava, provocante, do estribo para a calçada, erguendo o vestido longo até os joelhos.

Duas aventureiras mais “explícitas”  também chamavam a atenção, embora as damas de nossa sociedade lhes virassem as costas e torciam o nariz. Pudera! Maria Batalhão e sua fiel escudeira Manquinha não eram vistas como “flores dos melhores jardins”. Mas gostavam de ornamentar e alegrar as guaritas dos solitários recrutas do Quinto G-Can, da Escola de Cadetes e do Primeiro BCCL. Daí o “Batalhão”, a que ela respondia com rimas, ainda que pobres: “Dinheiro na mão, calcinha no chão”. Outra Maria, a “Louca”, vivia da tragédia, coitada. Perdeu uma filha em tristes circunstâncias, deduziam os que dela sentiam pena. De birote nos cabelos e vestido branco comprido, Maria Louca chorava e vagava pelas ruas, até se ajoelhar diante do quartel dos bombeiros, na Ferreira Penteado, implorando que lhe salvassem a criança.

Outra personagem inesquecível foi Oscarlina, cozinheira da “Casa da Elisa”, perto do Brinco de Ouro. “Ela batia em homem!”, exclama o repórter Renato Otranto. Desfilava na escola de samba “A voz do morro”, com o ponta-direita Sabará, da Ponte Preta, e com o mestre-sala Ercy, um artista da avenida, idêntico ao magistral Grande Otelo, “até no bigodinho e no beiço.”.

Tínhamos, também, uma pequena legião de mendigos, que em Campinas, só em Campinas, ainda são definidos por um adjetivo inédito: “Ligeiras”. Maltrapilhos, às vezes eram apontados como “homem do saco”, por mamães que queriam assustar filhos desobedientes. Entre eles, o “Pedrinho Caramujo”, um dos primeiros favelados da cidade. Vivia com a mãe e a irmã numa maloca de folhas de latão e tábuas em um matagal atrás da fábrica de chapéus Cury. Quando se mudava para outro bairro, levava a lataria nas costas. Daí… Por ali também circulava De Monte, com um saco nas costas. Personagem de uma lenda. No começo, habitava o solar dos Alves, palacete abandonado, perto do prédio central da Puccamp. Diziam que vinha de família rica e foi consumido pelo álcool por uma frustração amorosa com Telma, bela jovem que morreu porque a família impediu o romance. Há muito, ela dá nome a um edifício na Regente Feijó.

Se andasse hoje pela cidade, ele seria confundido com um jamaicano dançarino e cantador de “reggae”. Mas naquele tempo, o chapelão colorido, de feltro, era a marca de “Firma Nêga”, negro esguio, sorriso branco e largo, do jovem que vivia pela Praça Bento Quirino. Quando passava mulher bonita, era esse seu grito de saudação: “Firma Nêga!”. Outro “ligeira” foi “Currunhado”. Esse é do início do século. Preto, pernas tortas, respeitador. Nos feriados religiosos, “de guarda”, como se dizia, ia sempre à frente das procissões.

Na “estica”, também, perambulava mais um tipo conhecido, o Coronel Receba. De guarda-chuva, mesmo em dia de sol, de terno, ainda que sob um calor de rachar, freqüentava missas aos domingos e, durante a semana, batia de porta em porta. Pedindo esmola? “Não, meu senhor, vim cobrar a conta”, se explicava, imitando a figura do cobrador, comum na paisagem da Campinas de antanho. Eram chamados de “prestamistas” os que cobravam a prestação da loja, a conta do telefone, da padaria, do armazém, da Tração, Luz e Força…

Outro tipo elegante: Dito Colarinho, o carroceiro mais querido da cidade. Ficava no ponto da estação, esperando encomenda para carretos. O trem trazia bagagens da Capital e ele as distribuía pelas lojas de varejo da Treze de Maio e pelas de atacado da Costa Aguiar. Orgulhava-se de possuir um boné de maquinista da Companhia Paulista – houve um tempo em que o maquinista era uma das pessoas mais respeitadas de uma comunidade, algo como piloto do trem aeroespacial de hoje. O “Colarinho” vinha da camisa de linho impecável e de gravata borboleta.

Não podemos nos esquecer do “Fala Rio”, gari da limpeza pública, sempre com uma lata de óleo Lírio e uma vassoura, recolhendo o lixo das ruas do Centro. Esse seu “grito de guerra” era uma imitação do locutor de futebol campineiro Oduvaldo Cozzi, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, quando transmitia jogos da seleção brasileira em outros países. Para chamar o plantão esportivo, na capital da República, Oduvaldo dizia: “Fala Rio!”.

Justamente aquele que quase não “falava”, constrangido por ser fanhoso, tinha o apelido de “Falinha”. Magro, careca, baixinho, óculos de aro de tartaruga, terno de casimira cinza, vivia no auditório da Rádio Brasil, ali na Galeria Trabulsi. Pau para toda obra, um dos primeiros officeboys da cidade. Um dia, pediram que comprasse um pente Flamengo e lhe deram uma nota de 50 cruzeiros – aquela com a efígie da princesa Isabel. Falinha voltou com dez caixas de pentes… Ninguém entendia o que ele falava, era melhor deixar pra lá e distribuir aquele mundo de pentes entre os amigos.

Graças à lembrança de última hora de um grande jornalista, o Zaiman de Brito Franco, incluo neste elenco de astros e estrelas um tipo que era popular e não era louco – ao contrário, um dos mais lúcidos campineiros desta terra: seo Vignatti, o cobrador de bonde. Repito aqui, como homenagem a esse homem especial, o que falei dele várias vezes:

“Era seguro, o bonde. Devagar e sempre. Imagine, que os cobradores andavam pelo estribo cobrando a passagem de cada um, com as cédulas dobradas entre os dedos. Eram educadíssimos, cordiais. Quando um homem não se mexia para dar lugar a uma mulher, o cobrador anunciava: “Como é, cavalheiro? Não vai se mexer?”. Quando ele deixava a senhora se sentar, o cobrador exultava: “Parabéns! Palmas para o cavalheiro!”. E a gente aplaudia… Eles agüentavam “o diabo” da molecada que viajava para casa na volta da escola. Eram vítimas de muitas brincadeiras, mas eram adorados pelos meninos e meninas. Os pais confiavam neles. Sabiam que os filhos estavam em boas mãos. Se não houvesse troco para a passagem, no dia seguinte tudo era acertado. Quanto “quinhentão” fiquei devendo para o seo Vignatti, um verdadeiro ídolo da meninada. Símbolo dos cobradores de bonde de Campinas. “É um prazer tê-la em nosso carro, madame. Todos bem em casa? Estimo!” Quantas vezes vi seo Vignatti fazer o bonde esperar, até que ele ajudasse alguma senhora a descer com pacotes de compras, que ele mesmo carregava até a porta da casa da passageira. Ninguém reclamava. Ninguém tinha moral para esbravejar com o seo Vignatti. Pelo contrário. Sempre que ele auxiliava alguém, era aplaudido. Grande homem aquele cobrador! Uma das pessoas mais felizes que conheci. Ser humano maravilhoso. Vê-lo trabalhar era uma lição de educação, boas maneiras, dedicação, respeito e amor ao próximo.”.

A melhor definição para esses nossos tipos populares vem do Antônio Boscolo, do arquivo do nosso Correio Popular: “Eram pessoas de idade, adultas, mas sempre com a mente pura como a das crianças.”

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