No reino do Cerca-bode

Imagine se o padre Ambiel impedisse a apresentação da Sinfônica na Catedral só porque uma das violinistas é luterana. Mas aconteceu em Campinas, há muitos anos, na igreja do Senhor Bom Jesus do Bonfim. Até a fitinha do Senhor do Bonfim amarrada no pulso devia ser profana. E esta é só uma das histórias incríveis contadas por uma feliz passageira do Bonde 8, dos tempos em que o bairro, operário com muita honra e orgulho para Campinas, ficava nos limites da zona rural. “Tinha muita cabra solta e era chamado de Cerca-bode”, ri gostoso dona Olga Muller, que, aliás, começou a flertar o seu Mário Baptista Campos num dia em que ela saltou na Pedro de Toledo e ele continuou sorrindo a viagem. Depois, viveram felizes por muitos e muitos anos.

Vamos viajar com eles? O “8” saía do Largo da Catedral, seguia pela Glicério, General Osório e entrava na Andrade Neves… Cervejaria Colúmbia, Grupo Escolar Orosimbo Maia, Padaria Toscana, Companhia McHardy (paraíso das peças de reposição das grandes máquinas). Agora, a Doutor Mascarenhas, uma das ruas mais conhecidas do mundo porque ali fica o mundialmente famoso Instituto Penido Burnier.

Na virada para a Governador Pedro de Toledo, ficava o posto de gasolina Mac Faden, “que um dia pegou fogo, a gasolina escorreu pela galeria e queimou até na valeta da Orosimbo Maia!” – já pensou?). Ainda na Governador, os cafés São Joaquim e São Sebastião, do Sebastião Maria, o Cine Real, a estação da Sorocabana, o empório do Miguel Paschoal, pai do seo Donato, onde se vendiam dez bananas por um tostão, e na frente, outro posto, comandado por dona Isolina Borghi. Olha lá a fábrica de balas do seo Manuel Dias e seus famosos rebuçados. Nossa, o Alcindo Ferreira da Silva! Sapateiro, grande campineiro, vereador que honrou como pouquíssimos o mandato que o povo lhe deu.

“Ali é a Rafael Salles, se prepare. Aquela chaminé enorme é da fábrica de argolas e correntes que depois a IBAF comprou. Dizem que trabalhava nela um grande especialista em fundição, o alemão Otto Tenzel. Pronto, ali é  a Praça Izidoro Dias Lopes e a Rua Erasmo Braga. O bonde vai parar, vamos virar os bancos e voltar para a cidade. Mas não se esqueça da Rafael Salles. Essa rua ia até o Castelo, e nos anos 30, foi pista de ‘racha’. Sabe quem correu aqui? Benedito Lopes, Chico Landi, parece que o Fangio também, e um italiano, o Carlo Pintacuda. Até uma mulher, francesa, que a gente chamava de ‘Pintacuda Francesa!’”

Pregado no poste: “E se o secretariado fosse escolhido por concurso?”

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